Diário de Notícias - 6 de Maio

Mãe Coragem

João César das Neves

Ontem, foi Dia da Mãe. Todos, da criança oferecendo um trabalho escolar até à avozinha viúva, se lembraram daquela que primeiro soube de nós, que nos amou sem nos conhecer, a primeira pessoa que vimos e nos mostrou o mundo num sorriso.

Este é o dia em que se afirma a dívida que nunca poderemos pagar.

Mas, por incrível que pareça, esta velha tradição está a mudar.

É difícil compreender, mas vivemos no tempo em que o Dia da Mãe não é data celebrativa, como o Natal. Passou a ser uma jornada de combate, como o 1.º de Maio. De facto, a nossa sociedade é a primeira que pôs em causa a sua figura mais central e fundante. Mantém-se algum do folclore exterior e permanece o sentimento profundo, mas a prática quotidiana e as instituições viraram-se contra aquela que todas as culturas sempre respeitaram.

As filosofias individualista e colectivista, bases da suposta cultura moderna, não gostam das mães. De facto, a maternidade manifesta, pela sua simples existência, a incongruência lógica de posições que vêem o fundamento da vida humana no esplendor do herói isolado ou da estrutura social. O super-homem de Nietzsche e o partido de Lenine não têm mãe, como Charlot, Mickey Mouse, 007, os Beatles, ou Che Guevara. Também Marilyn Monroe, Miss Marple, Barbie e Janis Joplin não pensam ser mães. Às vezes, a moda muda e as famosas posam grávidas nas revistas, a pensar na carreira, não na criança.

Igualmente a ciência moderna se dá mal com as mães. Para Darwin, são meros veículos da selecção natural, enquanto Freud as considera fontes de recalcamentos e paranóias. Mais que a vida, as mães deram-nos os complexos de Édipo e Electra. Pior: a era científica desprezou o sentimento subjectivo, impondo o cálculo concreto e material como único critério razoável. Assim, a mulher é analisada numa unidade político-social, presa em teias de relações de poder. Sob este ponto de vista, empalidece o vínculo maternal, tomado como mera conexão socioeconómica.

Daqui nasce o feminismo, o mais terrível ataque histórico à identidade feminina. Bem-intencionado, pretende melhorar a injusta situação política, financeira e profissional da mulher. Mas fá-lo reduzindo-a a um homem oprimido. Se os únicos critérios valorativos são os da vida civil e produtiva, perdem-se de vista todos os elementos da profunda influência da mulher em todas as culturas, masculinizando-a fatalmente. Não admira que, sem compreender a realidade, se defenda a tese insólita e incrível da eterna opressão da mulher. Como resultado, a identidade maternal é radicalmente desprezada logo pelas filosofias que alegam defender o feminino.

O ataque moderno à pessoa da mãe atingiu hoje já a forma de combate aberto. Multiplicam-se os atentados à maternidade, por defeito ou por excesso. A vasta campanha a favor do aborto livre chegou ao paroxismo delirante. As mulheres que decidam rejeitar o filho concebido são heroínas públicas, enquanto as que o vêem nascer são meras contribuintes. Em toda a questão desapareceu a outra figura essencial do processo, o pai.

Além disso, os exageros no direito à maternidade criam as suas perversões. Os tratamentos de fertilidade multiplicam-se, com o rosário de partos anormais, mortes e deficiências graves ou o horror silencioso dos embriões congelados. Aumentam as paródias à maternidade, com as barrigas de aluguer, as adopções por homossexuais e a suprema infâmia da clonagem.

Os ataques geraram a defesa com o surgimento de meritórias instituições de apoio à maternidade. Como símbolo de uma miríade, lembre-se hoje aquela cujo título é mais adequado ao dia, a "Ajuda de Mãe" (com a linha S. O. S.-Grávida - 213 952 143). Estas excelentes instituições são novas. Sempre houve esforços de ajuda materno-infantil, mas dirigiam-se à pobreza, não à maternidade. Pela primeira vez na história, a cultura reduziu a mãe à categoria da tuberculose, droga ou migração.

Os insólitos ataques à família têm mesmo consequências ridículas. Note-se, por exemplo, que o sentido etimológico de "proletário" vem da paternidade e maternidade ligada à prole numerosa. Mas, hoje, entre nós, quem defende os proletários é a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (apfn@netcabo.pt). E temos a situação curiosa de os partidos de esquerda se oporem aos proletários.

A base doutrinal de tudo isto é a incongruente tese dos "vários tipos de família", que, como todas as armadilhas ideológicas, nasce da recusa da evidência. Um grupo de amigos e uma ligação passageira nunca foram família, em lugar nenhum do mundo. Também há vários tipos de alimentação, mas ninguém come pedras.

Porque se dirigem à realidade mais determinante da nossa humanidade, estes ataques têm um dramatismo horrendo e arriscam-se a destruir o muito de bom que a nossa civilização conseguiu.

Devemos ter esperança, porém, que os beijos e presentes que ontem foram trocados sejam suficientes para nos salvar a nós e às mães do futuro.

naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

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