Público - 29 de Maio

Educar É Não Facilitar

Por DAVID PONTES

As crianças são o nosso futuro. Elas até podem não ter a consciência disso, mas a verdade, mesmo que desgastada pelo chavão, mantém-se inalterável. O mundo que fizermos hoje é a elas que vamos entregar e serão elas a determinar a continuidade da nossa herança. Daí que seja nossa absoluta obrigação garantir que elas cheguem a esse encontro com o futuro e que aí cheguem com a melhor preparação possível.

Estamos, infelizmente, bastante longe de cumprir bem esses objectivos. A notícia dada nesta edição de que, pela terceira vez (duas delas num curto espaço de tempo), crianças sofrem ferimentos graves, e mesmo a morte, devido a queda de balizas, é a prova disso mesmo. Se os casos não fossem tão dramáticos, seriam rotulados de acidentes absurdos. Mas trata-se de situações gravíssimas, já que os acidentes não ocorrem num qualquer local público, mas em recintos onde deveriam existir as melhores condições para o divertimento e a formação das crianças.

No início de cada jogo de futebol vemos a equipa de arbitragem verificar cuidadosamente, em cada baliza, se as redes se encontram bem fixas, para evitar que uma bola traiçoeira possa enganar o juízo do árbitro. É pena que o mesmo cuidado não se tenha sempre que as crianças entram em campo, para assim evitar que uma baliza traiçoeira cometa uma tão grande injustiça.

Mas não é só dos perigos físicos que os mais pequenos de hoje têm que acautelar-se. Numa era em que a televisão rivaliza fortemente com a escola e com a família, são também os valores e os princípios que estão em risco. O telelixo actual transmite uma cultura marcada pela boçalidade e pela facilidade, em que sem esforço, sem trabalho, se alcança o sucesso. É-se uma estrela nacional por se estar numa casa quatro meses sem fazer nada, ou por ter feito uma operação plástica. Daí que, no mínimo, o Ministério da Educação possa ser acusado de ingenuidade, ao escolher, para o teste de Português da prova de aferição do 6º ano, um texto que começa com um rapaz que tira uma negativa a Matemática, de seguida parte um vidro, foge num autocarro e acaba por encontrar uma mala cheia de dinheiro que decide levar para casa. Quando chega a casa, os pais ameaçam cortar-lhe a semanada e eles pensa : "Pobres pelintras... Para que queria eu a esmola deles?". Como se trata de um extracto, não sabemos se a história em questão tem uma moralidade no fim, ou se é mesmo a consagração da cultura da irresponsabilidade e do facilitismo.

A moral que é preciso reafirmar aqui, perante os possuidores de recintos desportivos ou perante o Ministério da Educação, é que nestas coisas de crianças nunca é bom facilitar. O azar está sempre à espreita. 

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