Público - 25 de Maio
O Fim da Inocência
Por MARIA FILOMENA MÓNICA
Ontem, fui visitar as minhas netas, recém-instaladas em Lisboa.
Seguindo os doutos conselhos do médico, subi, a pé, a colina que vai
de S. Bento até S. Pedro de Alcântara. Evidentemente, quando lá
cheguei, estava estafada. O facto não impediu o espanto que senti
diante do espectáculo com que me deparei. A Joana, de três anos,
estava sentada diante de um daqueles computadores Mackintosh com as
entranhas à mostra. Aproximei-me lentamente, pelo que pude observar a
destreza, muito superior à minha, com que ela manejava o
"rato". Depois de um beijinho repenicado, continuou a brincar
num qualquer jogo barulhento. Até que, farta, me pediu para fechar o
computador.
Como eu apenas trabalho com PC, não sabia o que fazer. Eis se não
quando, vinda da varanda, ouço a voz da Rita, de seis anos: " Ó
avó, vá pelo 'View'." Fiquei a olhar aquelas criaturas, ambas
abaixo do limiar da idade da razão, mas que sabiam mais de computadores
do que eu.
Desobedecendo às ordens da minha filha, depois de jantar, deixei-as
ver televisão até tarde. Depois, ficámos a conversar sobre os perigos
da saída do tecto familiar aos 14 anos, sobre as vantagens do uso de
fato de banho relativamente ao biquini e sobre a idade a que uma
rapariga pode começar a ir a uma discoteca. Tudo coisas que interessam
vivamente a Rita, a qual delira com o Super-Pai, da TVI, e com o "Neco",
da SIC. A meio da discussão, notei que esta conversa seria
inimaginável, já não digo há cem, mas apenas há 40 anos. Durante a
viagem até casa, não parei de pensar, tendo chegado à conclusão de
que as minhas netas pertencem a uma geração totalmente diferente, não
só da minha, mas da dos meus filhos. Nadas e criadas à sombra da
televisão, as crianças da sua idade vivem num ambiente cultural onde a
televisão e a Internet são os meios privilegiados de contacto com o
real.
Recordei então uma obra lida há muitos anos, "L'Enfant et la
Vie Familiale sous l'Ancien Règime" (1960), de Philippe Ariès, na
qual o autor demonstra quão recente é o conceito de infância. A ideia
de que as crianças são diferentes dos adultos surgiu durante a
Renascença e só muito lentamente se foi divulgando. Ao contrário do
que, por vezes, se pensa, a infância não é uma categoria biológica,
mas social. Os seres que mimamos com tanta energia não tinham, há 300
anos, qualquer espécie de regalias. Mesmo as classes ricas não lhes
atribuíam a mínima importância. Após assegurada a primogenitura, os
filhos podiam desaparecer à vontade. Até tarde, a aristocracia
francesa entregou os seus rebentos a amas que os penduravam, enfeixados,
num gancho, após o que, em geral, morriam de fome. Além disso, as
crianças usavam as mesmas roupas, desempenhavam os mesmos trabalhos e,
se preciso fosse, morriam na forca como os pais. Os quadros campestres
de P. Breughel ilustram-no genialmente, como o faz a pintura de
Velasquez, em que as infantas espanholas são retractadas como adultos
em miniatura.
Gradualmente, aceitou-se que a criança, por ser ignorante, não
podia comportar-se como um adulto. Competia, por conseguinte, a este
introduzi-la na esfera da racionalidade. Foi por esta altura que
começaram a surgir escolas. Nelas, as crianças eram não só ensinadas
a ler, como se lhes incutia, através do conceito de vergonha, regras de
conduta. Não é possível indicar uma data precisa para o apogeu do
conceito de criança, mas o período entre 1850 e 1950 anda lá perto.
Os meninos foram então vistos como seres bondosos, ignorantes,
inocentes. Mais uma vez, a pintura ilustra a mudança:
olhem-se os rostos angelicais do século XIX.
Um dia, chegou a televisão. Actualmente, as crianças começam a
apreciar o ecrã por volta dos 18 meses. Aos três anos, têm já
capacidade para compreender e reagir a imagens, simpatizar com figuras e
até decorar as músicas das mensagens publicitárias. Mais
significativo, os mistérios que, até então, os adultos tinham
guardado para si - como a sexualidade - foram desvendados. Ao abrir os
bastidores da vida adulta aos olhos infantis, a televisão recriou
condições muito parecidas com as que existiam nos séculos XIV e XV.
Com uma diferença: o trabalho é adiado para muito mais tarde. O que,
como é óbvio, cria tensões nos lares.
Se um grupo é, em grande medida, definido pela exclusividade de
informação que os seus membros detêm, o poder dos adultos "versus"
o das crianças está a ser minado. As crianças contemporâneas têm
acesso a tudo, da dor de uma mãe com um filho morto nos braços ao
prazer sexual de um casal, de feridos que jazem em hospitais à
violência da guerra dos mísseis, da carnificina das estradas ao
consumismo proposto pelos anúncios. O preço pela abertura ao mundo foi
a sua expulsão do jardim da inocência.
À beira de cair num pessimismo cataclísmico, recordei-me
subitamente que um dos vídeos preferidos das minhas netas era a "Cinderela".
Afinal, as coisas não eram tão lineares quanto havia pensado. Elas
podem observar crimes, guerras e dor na TV, mas ainda gostam, ainda
precisam, de fadas. Aliás, de tal forma viram e reviram a Gata
Borralheira, a abóbora e o sapatinho que a Joana, acabou, sem querer,
por destruir a "cassete".
A televisão tem sido acusada de muitas coisas. Mas importa não
esquecer que ela também é capaz de transmitir conhecimentos. Não da
maneira simples, profunda e sistemática que eu gostaria, mas, com base
no que os alunos aprenderam via televisão, a escola pode aprofundar
certos temas. Certamente que não há criança (pelo menos aquelas que
têm TV Cabo em casa) que desconheça a vida no Egipto antigo, o drama
do Holocausto, os hábitos dos animais. Aliás, por muito que se
resmungue, a televisão veio para ficar. O mundo mudou e, com ele, os
nossos descendentes. As minhas netas estão infinitamente mais perto de
mim do que eu o estava da minha avó. Mas encontram-se cada vez mais
distantes da inocência que caracterizou a minha infância.