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Expresso - 19 de Maio A
televisão será o espelho do país Fernando
Madrinha
NA TERÇA-FEIRA à noite, é bem possível que a SIC tenha destruído uma família. Pelo menos deu um forte contributo para isso e não foi por qualquer deslize ou percalço acidental, mas porque decidiu, com plena consciência e intenção, explorar um drama entre os pais de uma concorrente e a sua filha para fazer subir as audiências do «Bar da TV».
Perante o alto desígnio que é bater o «Big Brother» e garantir a preferência dos anunciantes no «prime-time» que importância tem uma família? E porque se há-de respeitar o seu direito à privacidade, aliás pedida a medo pela jovem concorrente, num rasgo de lucidez, e miseravelmente exposta no ecrã pelos agentes do negócio do «Bar»?
O choro convulsivo de uma filha e a brutal ansiedade dos pais atormentados que queriam levá-la para casa eram um «material» demasiado precioso para ser desaproveitado. Dificilmente se encontraria engodo mais eficaz para aumentar «shares» e audiências do que os sentimentos desencontrados de uma família em extremo sofrimento, apanhada, sem defesa, por uma câmara de televisão. Por isso as imagens foram transmitidas em directo e repetidas até à náusea, no próprio dia e no dia seguinte, como um maná caído do céu.
Não há motivo para surpresa. Desde que as televisões comerciais e generalistas assumiram que tinham de ficar acorrentadas aos programas da família «Big Brother», o que se espera é isto mesmo: cenas canalhas de qualquer tipo, com sexo e violência física ou psicológica, tanto faz. A única condição é que sejam cada vez mais canalhas, pois já se sabe que, se não houver nenhum travão, o caminho é sempre a descer.
O mais grave, porém, é que a fórmula «Big Brother» já não se aplica só nos programas de entretenimento; começou a tomar conta da própria informação. Se virmos bem, não existe uma grande diferença entre a exploração do drama familiar no concurso «Bar da TV» e a longa e penosa entrevista, apresentada no Jornal Nacional da TVI do mesmo dia, a um pai desesperado que denunciou à polícia o filho de 15 anos por ele se ter tornado traficante de droga. Descontando o facto de uns terem ido à SIC para resgatar a filha e o outro ter ido à TVI para contar a história do filho - cada um fará o juízo moral que entender sobre as iniciativas dos pais em causa - o resultado final é o mesmo, tal como a intenção editorial.
Dizer que a televisão dá ao povo aquilo de que o povo gosta e que, portanto, o problema está no povo, é uma forma expedita de apaziguar a consciência de quem tem a responsabilidade de decidir o que deve ou não ser transmitido. Toda a gente sabe que a televisão, pela força que tem como meio e pela responsabilidade social que acumulou, não pode ser encarada como um negócio igual a qualquer outro. A concorrência tem de obedecer a critérios de razoabilidade e bom senso que, entre nós, começam a ser ultrapassados com demasiada frequência. E despertam sentimentos de revolta que, não tarda muito, induzirão apelos à censura.
Para evitar que se chegue a esse ponto, só há dois caminhos a seguir: ou as várias estações assumem, por si mesmas, o compromisso de se conterem, ou alguém tem de as obrigar a esse esforço de contenção, fazendo cumprir a lei com dureza e agravando-a se necessário.
Pode ser que a TV seja o espelho do país, como os seus directores nos querem fazer crer - e, então, só podemos lamentar a triste herança que vamos deixar às próximas gerações. O que nunca chegaremos a saber é qual será o contributo dos programas alarves que a TV oferece e dos «valores» que ela tem promovido, para que o país seja aquilo em que está transformado.
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