de cinco em cinco
anos, como se fosse "um ritual". Defende antes que se ponham
em prática diplomas já existentes
Graça Henriques
O Presidente da República não é avesso a alterações da
Constituição, mas considera que as revisões não podem ser
"banalizadas", como se fossem "um ritual". Jorge
Sampaio defendeu ontem que é preciso é cumprir as leis existentes e
tentar sempre chegar a consensos políticos, em vez de se andar a
alterar de forma "compulsiva" a Lei Fundamental só porque é
possível fazê-lo de cinco em cinco anos. "Há questões que são
apresentadas como estruturantes, como questões decisivas, até parece
que a Pátria está em perigo. Perdemos pouco tempo a encontrar
consensos".
Antes de se chegar à revisão, é preciso recordar que muitas das
situações podem ser resolvidas pelo legislador ordinário, afirmou o
Presidente na abertura do colóquio sobre os 25 da Constituição da
República Portuguesa, organizado pela associação de estudantes da
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. As pequenas iniciativas
legislativas, em contraponto com "as grandes e eloquentes revisões
que nos cansam e esgotam e cujo resultado não é sentido pelos
cidadãos" podem ser mais produtivas.
E a prova de que os cidadãos nem sempre tiram proveito das
alterações à Lei Fundamental está na última revisão, a de 1997.
"Há ainda muito para fazer". Nomeadamente no que diz respeito
às candidaturas de independentes às eleições autárquicas. A sete
meses do sufrágio, os independentes ainda não sabem como se podem
candidatar, qual o regime de financiamento, alertou.
E é nessa tentação de remeter tudo para o legislador constituinte
que o Presidente considera que é necessário pôr um travão. Até
porque esta remissão para a revisão da Constituição pode, em sua
opinião, funcionar como uma fuga, mesmo que inconsciente, à
necessidade de enfrentar e resolver confrontos diplomáticos e
políticos.
Sampaio fez ainda questão de frisar que não está contra a
alterações à Constituição. No seu entender, as alterações e
abertura à renovação são necessárias. O que é importante é saber
distinguir se se deve atribuir ao legislador constituinte, ao ordinário
ou aos dirigentes políticos. E procurar consensos. A este propósito,
deu o exemplo da regionalização e recordou que nessa altura todos
assumiram a necessidade da descentralização.
"Como avançar se temos um consenso tão evidente? O que impede
que haja medidas legislativas neste domínio?"
Outro exemplo. O financiamento das campanhas eleitorais. Que, no seu
entender, também não tem a ver com a revisão constitucional, mas com
a vida política. De resto, alertou Sampaio, é preciso é aplicar as
leis existentes.
"Os direitos fundamentais não são renunciáveis"
Sem nunca mencionar o nome do polémico programa da SIC "Bar da
TV", o Presidente da República fez ontem questão de sublinhar que
é preciso respeitar direitos, garantidos na Constituição, como a
privacidade ou a protecção da dignidade de cada um. E a questão não
é assim tão complexa.
Basta seguir o caminho da auto-regulação do audiovisual e aplicar a
legislação vigente.
E para aqueles que concorrem aos "reality shows" deixou a
mensagem: "Os direitos fundamentais não são renunciáveis."
Sampaio falou da urgência do debate, embora admitindo que o tema não
é fácil. Mas foi dizendo que são questões possíveis de resolver,
nomeadamente, pela auto-regulação.