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Diário de Notícias - 14 de Maio
Uma coisa nova
João César das Neves
Amanhã, faz precisamente 110 anos que aconteceu uma coisa completamente nova. A 15 de Maio de 1891, foi publicada a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, "sobre a situação dos operários". Este texto, intitulado "Coisas Novas", foi de tal modo novo que se tornou uma das obras mais celebradas do mundo moderno. Por estes dias, comemoram-se também os aniversários de muitos outros documentos, colóquios e iniciativas, todos orientados para renovar o espírito do texto de Leão XIII. O que é que ele diz de novo? O tema é sem dúvida muito velho, sobre o qual já tudo se tinha dito, escrito, combatido e destruído. Todo o século XIX estava em tumulto, por causa da situação dos operários.
Além disso, a encíclica retomava coisas que muitos outros tinham afirmado, como a justiça no trabalho (op. cit. 7, 14-16, 32), a pobreza (17), os deveres do Estado (23 e seg.), as greves (29), os horários (30-31), os sindicatos (34 e seg.) e tantos outros temas correntes. "Uma questão de tamanha gravidade exige a cooperação e o esforço de todos" (12).
Mas o Papa dizia uma pequena coisa totalmente nova. Foi algo tão inovador que, ainda hoje, passado mais de um século, continua a ser radicalmente original. Simplesmente, o Papa afirmou, com toda a serenidade e firmeza, que "se trata de uma questão para a qual não existe solução aceitável e eficaz, a não ser na religião e na Igreja" (12).
Esta frase parece ser um completo disparate. A questão das empresas e dos trabalhadores depende de muitos factores e determinantes, pois é um dos magnos problemas sociais. Mas ninguém se lembraria de as considerar um tema religioso. Não admira que a encíclica tenha sido contestada, em muitos sectores. Em Portugal, um dos líderes políticos disse: "Resumindo: inúteis, inoportunas, antiquadas e perigosas - as doutrinas; egoístas e muito retrógrados - os motivos; incorrecta - a forma; não científica - a ideia. Tal é a encíclica de Leão XIII!" (Afonso Costa, 1895, A Egreja e a Questão Social, Coimbra).
Naturalmente, o mundo não ligou à estranha ideia do Papa e foi procurar soluções noutros lados. Ao longo do último século, muitos se debruçaram sobre os aspectos económicos, sociais, políticos, psicológicos e organizacionais do trabalho. Leis, instituições e negociações apresentaram respostas baseadas em novas estruturas de administração, largas reformas de salários e regalias, participação laboral na gestão, melhorias nas condições de trabalho, sistemas de previdência e segurança social, até em revoluções globais do sistema político. Muitos falharam, mas alguns desses progressos (que a encíclica, aliás, propunha) tiveram óptimos resultados nas condições laborais, traduzindo-se em avanços notáveis do nível de vida e das condições nas empresas.
Mas, hoje, após muitas décadas e múltiplas soluções, continua-se a viver um largo drama social. As suas formas são muito diferentes das de então, mas basta ver as recentes manifestações do 1.º de Maio, e os tons que elas estão a tomar, para se perceber que algo continua muito mal. Desemprego, falência da segurança social e a luta nova contra a globalização, que retoma velhos combates, mas lhes acrescenta um travo de amargura. Ao fim de tantos esforços e de tantas vitórias, continuam a aparecer ameaças, que se mostram cada vez piores. Afinal, as coisas não melhoraram assim tanto, em 110 anos.
Talvez seja a altura de olhar de novo para a coisa nova de Leão XIII. Já tentámos tudo o resto. Só nos esquecemos de ir ao fundo das coisas e de enfrentar o aspecto religioso da questão. Os cínicos, hoje como então, riem desta coisa nova. Mas, após tantas desilusões, começam a faltar-lhes alternativas.
Se tudo falhou, revoluções, instituições, políticas, medidas, subsídios, talvez valha a pena considerar a solução do Papa: olhar para o coração humano. "A Igreja... esforça-se por penetrar no íntimo das almas e conseguir que as vontades se deixem orientar e governar de acordo com os preceitos divinos. Este ponto é fundamental e o mais importante de todos, porquanto é dele que depende a súmula de todos os interesses e a solução adequada da questão" (20). O trabalho é religioso, porque é humano.
Em 1978, exactamente cem anos depois da eleição de Leão XIII, foi escolhido um novo pontífice. Ele viu como ninguém a tal coisa nova, pois era o primeiro Papa que fora operário: "No trabalho humano, o cristão encontra uma pequena parcela da cruz de Cristo e aceita-a com o mesmo espírito de redenção com que Cristo aceitou por nós a sua Cruz. E, graças à luz que, emanando da Ressurreição do mesmo Cristo, penetra dentro de nós, descobrimos sempre no trabalho um vislumbre da vida nova, do novo Bem, um como que anúncio dos Céus novos e da nova Terra" (João Paulo II, 1981, Laborem Exercens, 27).
Este texto celebra os 90 anos da Rerum Novarum. Mas não foi publicado a 15 de Maio, porque nessa data o Papa estava à morte. Fora baleado, por defender a coisa nova de Leão XIII.
João César das Neves, professor universitário, assina esta coluna à segunda-feira
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