Público -
25 Jun 07
Há melhores soluções
José Manuel Fernandes (PÚBLICO) e Raquel Abecassis
(RR)
Mais autonomia, mais variedade, mais
responsabilidade das escolas. Menos dirigismo e mais
fiscalização do Estado. E a possibilidade de os pais
poderem escolher a escola dos filhos
Fernando Adão da Fonseca preside ao Fórum para a
Liberdade de Educação, mas, ao contrário do
entendimento vigente, pensa que a escolha da escola
deve começar no sistema público e basear-se nas
famílias. Defende que a ideia de ser o Ministério da
Educação (ME) a controlar e a gerir tudo não só não
funciona como, no fundo, é uma herança da vontade de
controlar as consciências que vem do Estado Novo e
ainda marca a filosofia da organização do sistema
educativo.
Porque entende que a liberdade de escolha da
escola é tão importante?
Porque aquilo a que assistimos é a um ensino que,
muitas vezes, não tem qualidade, a um ministério que
não consegue gerir todo o sistema, porque
constatamos que são, por regra, os que menos
condições sociais têm os que são mais prejudicados e
porque, se as famílias puderem escolher mudar de
escola quando verificam que uma não funciona, isso
beneficiaria todos. O Estado só tem de ser árbitro,
de garantir que as escolas têm condições, que
cumprem regras e que todos podem ter acesso às que
escolherem. Isto implica um Estado forte, com a
autoridade dos bons árbitros. O que se passou numa
série de universidades privadas parece mostrar que o
Estado não consegue impedir a sua degradação e
perversão...
Porque, em vez de supervisionar, quer gerir, e gerir
exige muito tempo e recursos. E, quando se quer ter
mão num sistema com esta complexidade e variedade,
criam-se regras rígidas, quando o país faz-se é com
os portugueses. Evoluímos imenso no número dos que
têm acesso ao ensino, mas, no essencial, a estrutura
e a filosofia da organização do ME são idênticas às
de antes do 25 de Abril.
Quando se fala em liberdade de educação, a
reacção é dizer-se que o que se quer é o Estado a
financiar as escolas privadas e a desinvestir nas
públicas.
Esse não é o objectivo do Fórum. Não quer saber do
"sexo" das escolas, antes saber se todas as
crianças, sobretudo as com menos recursos, têm
acesso a escolas de qualidade. Para o fazer, o
Estado só tem de verificar se as escolas têm
condições de funcionamento, pagá-las e permitir a
escolha.
Fala de públicas ou privadas?
Como primeiro passo, o que defendemos é que a
liberdade de escolha deve começar por ser feita
entre escolas públicas. São escolas abertas a todos,
gratuitas, como neste momento são as que pertencem
ao Estado e aquelas que, sendo privadas, têm
contratos de associação. As escolas que têm outra
organização, que querem cobrar propinas, podem
existir, porque há espaço para elas, mas o que
queremos é que, no sistema de acesso universal,
possa haver escolha da escola. Se as crianças
continuarem a ir para aqui ou para acolá só porque
moram na rua A ou na rua B, nunca se estabelecerá
uma relação entre os pais e a escola. É mau o hábito
de se entregar a criança à escola e, pior, o de
esta, muitas vezes, não deixar que os pais
interfiram no que lá se passa.
Os professores dizem é que os pais não querem
participar, que não estão maduros...
Esse é o mesmo argumento que o Estado Novo utilizava
para limitar o direito de voto e falsear as
eleições. Temos de ser realistas: os que têm menos
recursos, os que trabalham muitas vezes de sol a
sol, não têm vantagem em envolver-se, porque a
informação que recolheriam não lhes seria útil. Com
liberdade de escolha, os pais podem envolver-se e
esse tipo de problemas tenderá a ser minimizado.
Que possibilidades tem uma escola pública, se não
pode, por exemplo, contratar directamente os seus
professores?
Deve poder.
E se o seu grau de autonomia pedagógica é
estreito?
Deve ser maior.
E os programas também poderiam variar?
O ME devia estabelecer o que é essencial, o que
todos têm mesmo de saber. O que não for considerado
essencial pode variar de escola para escola. Os
professores devem
ter um certo grau de liberdade, desde que garantam
que há um núcleo de conhecimentos que ensinam.
Isso não provocaria o caos?
Não, se o ME assegurasse que os projectos
pedagógicos eram conhecidos, se monitorizasse as
escolas, indicando as que melhor conseguem fazer
evoluir os alunos. Se isso acontecesse, e havendo
liberdade de escolha, o que a experiência de outros
países - Suécia, Dinamarca - nos mostra é que são
escolas mais fracas que vão melhorar mais depressa,
pois percebem que, se não melhorarem, morrem. Mais:
vão surgir escolas concorrentes, como na Holanda,
onde um grupo de vinte pais, se quiser, pode fundar
uma escola.
Fala de países de tradição social-democrata,
quando, em Portugal, os que defendem a liberdade de
escolha são acusados de serem de direita.
Quem impediu a liberdade de escolha foi o Estado
Novo, porque queria controlar as consciências. E
ainda hoje, no fundo, muitos dos que combatem este
princípio têm concepções dirigistas. Entendem que a
República deve educar as pessoas de acordo com
determinado modelo, e há concepções destas em todos
os partidos políticos.
A seguir ao 25 de Abril, entendeu-se que devíamo-nos
inspirar no modelo sueco, e assim se fez. Só que,
entretanto, como eles estão atentos ao mundo,
perceberam que estavam a ficar para trás e a solução
era dar flexibilidade às escolas e liberdade de
escolha aos pais. Fizeram-no em 1992 e agora estão a
recuperar terreno. Nós é que já não estamos a olhar
para esse modelo. Veja-se o que Blair fez em
Inglaterra. Começou por fazer mais ou menos o que a
nossa ministra está a fazer, procurando melhorar o
sistema, geri-lo melhor, financiá-lo correctamente.
Agora, com o lançamento do Livro Branco
ainda em discussão, o seu Governo chega à conclusão
de que podia ter feito muito mais se tivesse optado
pela liberdade de educação mais cedo, propondo um
modelo que é muito idêntico ao que nós defendemos.
Onde está, então, o problema?
Nos que pensam que o Estado pode fazer melhor do que
os cidadãos. Nós temos é de acreditar nos
portugueses. Temos de pensar como Adenauer, que,
depois da tragédia da II Guerra, disse que iria
reconstruir a Alemanha com os alemães, e fê-lo com
sucesso.
O que tem feito o Fórum aí?
A pedagogia das ideias. Acreditamos na metáfora do
velejador: se o vento mudar de direcção, o velejador
tem de mudar a posição da vela. Tentamos que o vento
das ideias mude de direcção.
Entretanto...
O problema é que não se podem compensar os erros de
hoje. Não se indemniza uma criança que não teve
educação adequada, pois perdeu-a para sempre. Essa é
a grande tragédia dos nossos maus resultados.
Quando há autoridade e não apenas poder nas escolas,
os problemas de segurança resolvem-se melhor,
argumenta Fernando Adão da Fonseca, presidente do
Fórum para a Liberdade da Educação.
A ministra acaba de anunciar a introdução de
videovigilância em todas as escolas. É o melhor?
Não há dúvida de que o problema da violência dentro
das escolas existe e tem que se actuar depressa. Só
que, sem querer ser reducionista, a verdade é que há
escolas inseridas em áreas-problema onde isso
acontece e outras onde não acontece. Ora, quando
entramos numa escola dessas que funciona bem, às
vezes basta entrar nela e falar com a directora, ou
director, e percebe-se logo porquê: ali há
autoridade e não apenas poder.
Se as pequenas faltas cometidas pelos alunos
suscitarem uma intervenção imediata, em vez de serem
desculpadas, isso podia ser mais eficiente?
O que é fundamental é manter a escola limpa, não
deixar que se degrade, intervir quando alguém risca
uma parede ou parte um vidro. Pode haver casos
extremos em que a videovigilância ajuda, mas não é a
melhor maneira. Mais: se os pais puderem mudar os
seus filhos de uma escola-problema para outra onde o
problema está controlado, isso também ajuda muito. E
isso é fácil de fazer se o primeiro-ministro quiser.
Porquê o primeiro-ministro?
Estas reformas só se fazem com a intervenção do
primeiro-ministro. Nos outros países, foi assim. É
preciso é coragem.
E há falta de coragem?
Há. É mais fácil melhorar as infra-estruturas,
construir instalações para professores, pagar os
transportes às crianças. É mais difícil assumir que
o ministério, em vez de gerir as escolas, vai ser
apenas o ajudante das escolas. Em vez de muitas
circulares, perguntar apenas: do que é que precisam?
Isto seria colocar o ministério ao serviço das
escolas, escolas para quem o ministério também
transferiria a responsabilidade pelas opções e pelos
resultados.
Fernando Adão da Fonseca é um dos animadores de uma
série de debates - Encontros dos Jerónimos - onde se
tem discutido o Estado Social do século XXI. "O
valores do Estado Social são centrais nas nossas
sociedades, mas este começou a estar mais preocupado
com os fornecedores dos serviços do que com os que
esses serviços deviam servir", diz. Lembra que o
objectivo do Estado Social é assegurar o acesso de
todos aos direitos fundamentais, o que, na saúde, na
educação e em muitos outros casos, "exige recursos
económicos". Ora, defende, "o Estado não tem de ser
o fornecedor universal desses serviços, antes o
garante de que eles existem". Mas, "em muitos
sectores, como o da Educação, temos um Estado
fornecedor que se preocupa mais com a gestão do
dia-a-dia. Os ministros são os ministros das
escolas, dos funcionários, dos professores, não os
ministros dos cidadãos".