Desastres deixam 1,2 milhão de mortos e 50 milhões
de feridos
A negligência na estrada traduz-se, anualmente no
mundo, em 1,2 milhão de mortos e 50 milhões de
feridos, um «desafio» social para o qual o Vaticano
propõe soluções em suas «Orientações para a Pastoral
da Estrada».
Do documento, dado a conhecer nesta terça-feira no
Vaticano, encarregou-se o Pontifício Conselho para a
Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, em cujo âmbito
se compreende a Pastoral da Estrada.
Estruturadas em quatro partes -- usuários da estrada
e da via férrea, e todos que trabalham nestas;
«mulheres da rua»; «crianças da rua»; pessoas «sem
teto» --, as Orientações buscam «criar uma
coordenação entre todas as realidades eclesiais no
mundo da estrada, e alentar as Conferências
Episcopais dos países nos quais esta pastoral não
existe, a fim de que a organizem», explicou o
presidente do dicastério, o cardeal Renato Martino,
na apresentação do documento.
Ele enfatizou -- centrando-se na primeira parte,
dedicada aos usuários da estrada --, a importância
de que as vias de circulação estejam «ao serviço da
pessoa humana como instrumentos para facilitar a
vida e o desenvolvimento integral da sociedade».
Por isso, as Orientações diferenciam o uso e o abuso
da estrada, e apontam a «particular psicologia do
motorista» que, em uma vertente negativa, pode
sentir «como limitações de liberdade as proibições
que os sinais de tráfego impõem», ou pode deixar-se
impulsionar por um «instinto de domínio» ou de
«prepotência», por citar algumas características.
Neste contexto, o cardeal Martino afirmou: «É de
fundamental importância que o motorista tenha um
comportamento responsável e de autocontrole quando
dirige».
A direção também tem «aspectos morais»: «A
capacidade de conviver e entrar em relação com os
outros pressupõe, no motorista, algumas qualidades
específicas» -- declarou o purpurado --, tais como
«o domínio de si, a prudência, a cortesia, um
adequado espírito de serviço e o conhecimento das
Normas de Trânsito».
«Sabemos que, como conseqüência da transgressão e da
negligência da disciplina na estrada, cada ano, nas
vias do mundo, morre 1,2 milhão de pessoas, enquanto
os feridos são 50 milhões», «uma triste realidade e,
ao mesmo tempo, um grande desafio para a sociedade,
assim como para a Igreja», advertiu o cardeal
Martino.
Por isso, recordou que João Paulo II recomendava que
cada um se comprometesse a criar uma «cultura da
estrada», baseada na difundida compreensão dos
direitos e deveres de cada um e no comportamento
coerente que deles se desprende.
Outro campo de ação de Igreja e Estado
O panorama traçado não pode permanecer alheio à
solicitude da Igreja, pelo que esta -- recordou o
cardeal Martino -- «tem a missão de denunciar
situações perigosas e injustas causadas
freqüentemente pelo tráfego».
«Frente a um problema tão grave, Igreja e Estado --
cada um no âmbito das próprias competências -- devem
atuar a fim de criar uma consciência geral e pública
no relativo à segurança da estrada -- assinalou o
purpurado -- e promover, com todos os meios, uma
correspondente e adequada educação dos motoristas,
dos que viajam e dos pedestres.»
«A mobilidade, característica das sociedades
contemporâneas de todo o mundo, constitui hoje, com
seus problemas, um desafio urgente para as
Instituições e para os indivíduos, assim como para a
Igreja», constatou.
Com a Pastoral da Estrada, apontou o cardeal Martino,
a Igreja «quer suscitar uma renovada tomada de
consciência das obrigações inerentes à estrada e da
responsabilidade moral acerca da transgressão das
normas de circulação», para prevenir as fatais
conseqüências que evidenciam os números antes
citados.
Quatro virtudes e um «decálogo» para o motorista
As Orientações do dicastério, explicou seu
presidente, apontam quatro virtudes cristãs como
essenciais para a direção: «em primeiro lugar,
naturalmente, a caridade»; a esta se une a
«prudência», que «exige a precaução com a qual se
deve enfrentar os imprevistos que se podem
apresentar em qualquer circunstância», e exige
«harmonia de atitudes e disposições, de maturidade
de juízo e um hábito de autocontrole».
O documento também alude à virtude da «justiça», que
«exige de quem dirige -- seguiu o cardeal Martino --
um conhecimento completo e exato do Código de
Circulação» e «levar em consideração» tais regras; e
a da «esperança», que para os fiéis, neste contexto,
aporta a certeza de que, na viagem para um destino,
Deus caminha com o homem e o preserva dos perigos».
Com a exortação ao exercício das virtudes por parte
do automobilista, o documento dá também seu
«decálogo», em analogia com os Mandamentos do
Senhor, que o purpurado italiano enumerou:
Não matarás.
Que a estrada seja para ti um instrumento de
comunhão entre as pessoas, e não de dano mortal.
Que a cortesia, a correção e a prudência te ajudem a
superar os imprevistos.
Seja caridoso e ajude o próximo na necessidade,
especialmente se é vítima de um acidente.
Que o automóvel não seja para ti expressão de poder
e domínio, nem ocasião de pecado.
Convence com caridade os jovens, e os que já não o
são, para que não dirijam quando não estiverem em
condições de fazê-lo.
Apóia as famílias das vítimas dos acidentes.
Faze que a vítima se encontre com o automobilista
agressor em um momento oportuno, para que possam
viver a experiência libertadora do perdão.
Na estrada, protege a parte mais frágil.
Sente-te tu mesmo responsável pelos outros.