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Diário de Notícias - 28
Jun 06
A indisciplina
escolar
Vasco Graça Moura
Sobre a questão da indisciplina nas escolas publicou
Fátima Bonifácio um veemente e indignado artigo no
Público de sexta-feira passada. Escolas
transformadas naquilo a que ela chama "depósitos de
delinquentes", professores (e sobretudo professoras)
insultados e agredidos, alunos normais aterrorizados,
tudo isto, mais a ausência de elementares medidas de
vigilância, polícia e sanção, está a criar uma situação
explosiva no ensino.
É claro que essa saída existiria sem dificuldades no
domínio do politicamente incorrecto. Se o professor, ou
alguém por ele na escola, pudesse dar duas boas chapadas
ao jovem agressor, insurrecto e malcriado, o problema
resolvia-se em quinze dias. E, se as coisas continuarem
assim, virá o tempo em que não haverá outra solução que
não seja a restauração das palmatoadas e dos castigos
corporais, quer se goste quer não se goste. Nunca
fizeram mal a ninguém e, se sempre foram uma estupidez
no que respeita ao mau aproveitamento, também sempre
mostraram bastante eficácia no que toca às
agressividades.
Num livro que já não é recente, A Pedagogia da
Avestruz /Testemunho de Um Professor (2.ª ed.,
Gradiva, 2004), Gabriel Mithá Ribeiro analisa com
argúcia, entre outras matérias de relevância para a vida
escolar, o problema da indisciplina e reconhece que
esteve à beira dessa atitude: "Cheguei a ter de jogar
alunos e respectivo material pela porta fora, porque se
recusavam a obedecer à ordem de expulsão da aula;
cheguei a agarrar pelos colarinhos alunos que me
invadiam a sala; cheguei a pôr o dedo em riste em
algumas situações. Arrisquei a minha pele? Sim, mas
ganhei o respeito dos outros e assim pude trabalhar
(?)."
É muito pertinente a maneira como aborda a concepção da
escola e rejeita a "incompreensível confusão entre os
espaços simbólicos da família e da escola", afirmando a
necessidade de um poder coercivo legítimo, com a
possibilidade de sanções, "sempre legítimas e
indispensáveis, no limite, da exclusão de quem não se
compatibiliza com as normas".
É radical a sua crítica do pensamento e da prática
dominantes na busca dos consensos que pretendem tornar
os alunos "parceiros a tempo inteiro das decisões, no
âmbito da vida escolar", o que é "uma falácia
justificadora da fraqueza dos adultos". Por outro lado,
as vicissitudes de natureza burocrática tendentes a
efectivar a responsabilidade dos alunos são, como ele
lhes chama, "meandros kafkianos".
É extraordinária a descrição que faz das hesitações dos
professores e das delongas de preparação, instrução e
apreciação dos processos: "Participei no mês de Junho em
discussões sobre maus comportamentos que se arrastavam
desde Outubro, para optarmos por penas simbólicas." E,
enfim, a cereja no cimo do bolo: "Na maior parte das
reuniões desta natureza em que participei, emerge de
seguida o lado humano, cujos produtos finais, em bom
rigor, dever-se-iam chamar impunidade, permissividade e
irresponsabilidade."
Para Mithá Ribeiro, como para qualquer pessoa sensata, a
"pieguice pedagógica" não tem pés nem cabeça, o bom
selvagem de Rousseau não existe e a "questão dos
aberrantes e politicamente correctos castigos
pedagógicos é toda ela pensada partindo de uma visão
demasiado optimista da condição humana e da vida social,
como toda a actual filosofia do ensino".
A cultura profissional dos docentes é também uma das
principais causas da indisciplina: "Quando tudo se
centra no aluno, aos professores resta o sentimento de
culpa, de auto-flagelação por todos os males que afectam
o ensino." E "os próprios professores, a começar pelos
conselhos executivos, têm discursos e práticas contra
toda e qualquer forma de exercício de autoridade".
No sentido de inverter o rumo que as coisas levam, Mithá
Ribeiro propõe a criação de comissões disciplinares nas
escolas. A elas caberia a definição da estratégia
disciplinar do estabelecimento, o recebimento das
participações, a abertura e instrução dos processos, o
poder de suspensão imediata dos alunos nos casos mais
graves, o contacto com os pais, a presidência dos
conselhos de turma de natureza disciplinar, a resolução
de diferendos entre docentes e encarregados de educação,
o calendário e a fiscalização do cumprimento das penas e
uma vigilância constante ao longo do ano em matéria
disciplinar.
Não sei se a ideia resulta. É possível. Mas, entretanto,
talvez fosse preferível ir mandando regularmente a
polícia para as escolas mais problemáticas. |