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Diário de Notícias - 23
Jun 06
A geração dos
prazeres
Pedro Lomba
Esta semana ouvi a Vasco Pulido Valente, na
televisão, uma ideia que no imediato ajuda a
compreender a sociedade portuguesa. No fundo, a
questão é esta: como se explica que numa era de
crise e insegurança as pessoas continuem a encher os
aviões para o Brasil, a contrair dívidas, a recorrer
ao crédito, a consumir infrenemente? Responde VPV
com o seu histórico realismo: quem se habituou a uma
vida inteira com dificuldades e a uma pobreza
atávica usa fatalmente a subida do seu nível de vida
para tratar sobretudo dos prazeres. Não poupa, não
investe. Não quer que lhe falem de privações ou
retrocessos. A hipótese de viver acima das suas
possibilidades não o perturba. Há uma inconsciência
doce que acaba por prevalecer, uma absolutização do
presente, um irrealismo forçado e hedonista.
Portugal pode acabar que eu estarei, resignado e
feliz, num qualquer promontório, olhando o infinito.
Suponho que parte da dureza que é governar este país
vem precisamente daí. As classes médias portuguesas
adquiriram nos últimos 30 anos um nível de vida que
nunca tiveram no passado. A vida era dramática nos
anos 70, instável nos anos 80 e, com a melhoria da
economia, passou a ser confortável nos anos 90.
Permitiu que o automóvel, a televisão, o
electrodoméstico se democratizassem. Facilitou a
obtenção de casa própria. Há toda uma geração entre
os 40 e os 60 anos que sentiu na pele esse
crescimento, que acredita ter feito todos os
sacrifícios, que não quer perder nada do que
conseguiu. Chegou a altura de essas pessoas quererem
sossego, eleições e bem- -estar. Não as censuro.
Esta geração dos prazeres é individualista, céptica,
conservadora e imensamente resistente ao discurso
reformista dos políticos. A política não passa de
uma actividade menor, até um pouco histérica. Os
políticos são criaturas exóticas que ou visam os
seus próprios interesses ou falam sem dúvida de
mais. Não creio que isto mude com voluntarismo e
retórica. Na verdade não muda. E nós, os que não
pertencemos à geração dos prazeres, sabemos que só
podemos ser diferentes dos nossos pais. Seremos?
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