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Diário de Notícias - 23
Jun 06
'Civil service'
Maria José Nogueira
Pinto
Civil service: é assim que os saxónicos
designam a administração e o funcionalismo público.
E fazem bem pois disso se trata, servir o Estado que
serve os cidadãos, servir os cidadãos destinatários
do Serviço Público. Uma lógica inatacável que a
semântica não deixa esquecer.
Em Portugal, nem lógica, nem semântica.
Estado-Patrão, funcionários empregados, cadernos
reivindicativos, carreiras, progressões, salários.
Um festival de argumentos para os que - não é o meu
caso - advogam o sumiço do Estado e dos seus
empregados.
É isso que ressalta da contenda entre a ministra da
Educação e os sindicatos.
A ministra, ao que parece, quer rever este sistema
de Educação, péssimo na sua concepção, péssimo na
sua voragem de recursos, péssimo nos seus
resultados.
Os sindicatos, ao que parece, querem que todos os
professores cheguem a titulares, todos os
professores caibam na quota de excelentes (grau
máximo da avaliação) e todos os professores que
estejam cansados do exercício directo da docência se
mantenham (sabe--se lá onde..) em funções com todas
as regalias.
Como, segundo se diz, a ministra não é politicamente
hábil, ninguém quer saber que ideias tem, afinal, a
senhora para promover a melhoria do Sistema
Educativo. Isto é, desistiu-se de discutir o
essencial da questão - que educação deve ser dada
aos portugueses - para comentar a luta sindical dos
professores, analisando as suas razões de queixa,
não substantivamente, mas em função da falta de
tacto e táctica da ministra.
São duas e gravíssimas as consequências desta
atitude da opinião pública ou publicada, que põe no
mesmo saco questões de dimensão completamente
diferente.
A primeira é a inutilidade da discussão em torno da
carreira dos professores ou de qualquer outra
carreira. O Estado não tem dinheiro para pagar a
tanto "servidor", muitos dos quais excedem as suas
necessidades vistas à luz de um Estado moderno e
europeu. E, se ceder, não terá dinheiro para pagar
as reformas, ou o subsídio de doença ou o 13.º mês,
ou qualquer outra coisa.
E, o mais grave, não terá dinheiro para afectar a um
sistema de Educação a sério, que forme e ensine as
novas gerações.
A segunda é o desencorajamento - a priori -
de qualquer medida - mesmo a mais urgente e útil -
que contribua para melhorar algo tão decisivo como é
a educação.
Para mim, que não sou nem serei nunca do Partido
Socialista, era mais cómodo atacar a ministra quanto
à forma e ignorar que ela possa ter alguma
substância. Mas não o faço, porque sou portuguesa e
mãe e avalio a dimensão nacional do problema e conto
as gerações perdidas, de nove em nove anos.
Para mim, que admiro profundamente os professores,
tantos e tantos que com forte espírito de missão e
em condições adversas ensinam crianças e jovens,
muitos dos quais irrecuperáveis pela escassez de
oportunidades que a vida lhes criou a jusante e a
montante da escola, era mais grato fazer coro com os
sindicatos. Mas não o faço porque sei que os
professores (muitos, pelo menos) lutariam mais
convictamente para serem parte activa numa boa
reforma do ensino do que numa muito pouco razoável
reforma da sua carreira. Como lutariam por um
estatuto de dignificação do seu trabalho que não se
confunde com a quota de "excelentes" ou a carreira
"circular".
Como lutariam pelo reconhecimento de que a sua
profissão é de grande desgaste, o que não implica a
constituição de uma infinita retaguarda de
professores desocupados. Como lutariam por um
desempenho que lhes permitisse disciplinar e exigir,
em vez de serem presa fácil de desacatos
pré-deliquentes.
Não conheço a ministra de lado nenhum, mas, se tiver
uma ideia boa - uma que seja - para melhorar a
Educação, apoiá-la-ei como o faria se ela fosse do
PCP ou d'Os Verdes. Isso não interessa porque já não
temos tempo para o luxo de só apoiarmos os do nosso
partido ou cor politica.
Perante o desleixo e anquilosamento que grassam nos
sistemas públicos indispensáveis ao desenvolvimento
do País, as cores políticas e as bandeiras
partidárias desbotaram de vez, nesta matéria.
Quanto aos sindicatos, é bom não esquecer que os
professores existem porque os alunos existem. E os
professores funcionários públicos são-no porque ao
Estado ainda compete educar os cidadãos. Fora desta
lógica, qualquer reivindicação é inútil por absurda.
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