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Público - 23
Jun 06
Uma golpada na AR
José Manuel Fernandes
Realizar um referendo sobre a RMA seria um
disparate; recusar discutir o problema e humilhar 80
mil cidadãos é um disparate pior, próprio de uma
criança birrenta
Realizar um referendo sobre a Lei
da Reprodução Medicamente Assistida (RMA) nunca
seria uma decisão avisada. A lei é complexa, inclui
dezenas de temas diferentes, obrigou a muitos
compromissos e, para além disso, resultou de muito
trabalho técnico e inclui muitos conceitos que
seriam sempre muito difíceis de explicar aos
eleitores. Para mais, face ao atraso existente
nestes domínios, onde se tem vivido num vazio
legislativo que torna tudo fluido e permite
situações eticamente discutíveis, a lei se peca por
alguma coisa é por tardia. Confrontada com uma
petição de cidadãos pedindo a realização de um
referendo, a Assembleia devia aceitá-la, discuti-la
e, no quadro das suas competências, rejeitá-la.
Nunca devia ter feito é o que fez, isto é, preparar
uma "golpada" mais própria de uma reunião de alunos
do que de um Parlamento democrático.
Apesar de se poder considerar que o referendo não se
devia realizar, era obrigação da Assembleia da
República (AR) ter aceite discutir uma petição
assinada por quase 80 mil cidadãos. Em vez disso,
com a aparente cumplicidade de Jaime Gama, fez o
contrário.
Expliquemo-nos. Na semana em que a lei ia acabar de
ser discutida, o grupo que recolheu as assinaturas
pediu uma audiência ao presidente da AR para lhas
entregar na terça-feira. O seu gabinete respondeu
que o encontro só poderia ocorrer na quinta-feira.
Ora entre terça e quinta-feira os grupos
parlamentares que queriam aprovar a lei, em especial
o socialista, aceleraram a discussão e votação na
especialidade, para que a lei fosse votada na
quinta-feira. Assim o fizeram, só que na parte da
tarde. De manhã o presidente da AR, Jaime Gama,
recebeu a petição mas não a aceitou formalmente
dizendo que necessitava de um parecer de uma
comissão parlamentar. Ao fazê-lo, ao mesmo tempo que
se acelerava a caminho da votação final, Jaime Gama
impediu na prática que a entrada do pedido
suspendesse o processo legislativo em curso na
Assembleia. Como este entretanto terminou - pelo
menos na opinião da maioria, já que há quem defenda
que o processo só termina no momento da promulgação
pelo Presidente da República -, diz-se agora que já
não se procederá à discussão da petição, pois esta
deixou de ter objecto.
Todos estas manobras estão devidamente enquadradas
pela lei, ou pelos menos há leituras da lei que as
autorizam. Falta-lhes é qualquer bom senso. Pior:
revelam que os deputados não têm consideração por
pelo menos 80 mil cidadãos, já que nem sequer se
dignam debater os seus pontos de vista, antes
engendram manobras políticas para os desqualificar,
irritar e, no limite, fazer descrer da democracia.
Qualquer dos senhores que votou aquele parecer nunca
mais deverá falar da importância da participação
popular ou queixar-se do desinteresse dos cidadãos,
ou manifestar-se contra os níveis elevados de
abstenção: perderam de vez qualquer autoridade para
o fazer. Pior: portaram-se como os golpistas que,
nas reuniões de estudantes, entregavam um
requerimento para se passar à votação, quando
chegava a vez de dar a palavra aos que discordavam
das suas propostas. Mostraram ser pouco mais do que
criançolas nada incomodados com o desprestígio da já
desprestigiada Assembleia.
Quanto a Jaime Gama, a quem caberá a decisão final,
esperava-se dele mais bom senso e, como presidente
da Assembleia, mais independência. Já antes
contribuiu para o partido se meter numa trapalhada
sobre a duração da sessão legislativa e a hipóteses
de votar uma lei de despenalização da gravidez. O
anterior Presidente da República, Jorge Sampaio, e o
Tribunal Constitucional tiraram-lhe o tapete. Será
que quer correr o risco da mesma humilhação? |