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Público - 22
Jun 06
Ministra da Educação ou a construção de um mito
Paulo Rangel
1. Parece que a ministra da Educação disse algures
que "o sistema educativo está demasiado centrado nos
professores". Parece, aliás, que anunciou uma
verdadeira "revolução coperniciana", afirmando que,
de ora em diante, ele passaria a estar centrado nos
alunos, que constituem afinal a sua razão de ser.
Trata-se de um dos mais surpreendentes enunciados
políticos dos últimos tempos. Só mesmo ultrapassado
pela surpresa que causou o aplauso quase unânime da
opinião publicada e pública a tal posição de
princípio.
Surpresa que resulta da minha convicção de que o
sistema educativo tem essencialmente gravitado em
torno do aluno ou, para retomar uma fórmula de
Ortega, em torno "do aluno e da sua circunstância".
Com efeito, basta compulsar o debate educativo
travado em Portugal para perceber que a agenda
pública foi sempre marcada pelo interesse imediato
dos alunos. Fosse na discussão das propinas, fosse
na controvérsia sobre a introdução dos exames, fosse
na queixa do excesso de "trabalhos de casa", fosse
na vitória em toda a linha das modas mais aberrantes
das "ciências da educação". Tem havido, é bem
verdade, um debate permanente à volta do lugar da
escola estatal - muito dinamizado pela Igreja - e
houve uma luta mediática em favor da publicação da
avaliação das escolas. Mas estes dois tópicos têm
natureza institucional, em nada contribuindo para
corroborar o juízo de que a educação está focada nos
docentes. O único momento em que os professores,
ciclicamente, aparecem como o cerne da esfera
pública é o da realização do concurso para
colocação. Mas aí com a generosa solidariedade da
opinião pública, que reconhece os efeitos
contraproducentes das regras vigentes.
2. Pôr as coisas nestes termos - quais sejam os de
identificar o agente educativo cujos interesses mais
intensamente "capturaram" ou "cativaram" as
políticas educativas - é, porém, e já de alguma
maneira, aderir ao ponto de vista da ministra. E
isto mesmo que se discorde dela quanto à
individualização do agente - para ela, os
professores; para outros, nos quais me incluo, os
alunos. Na verdade, tal perspectiva faz reentrar,
pela porta larga, a "luta de classes" na escola: de
um lado, os alunos e seus pais; do outro, os
professores. De um lado, os explorados; do outro, os
exploradores. De um lado, a sociedade civil; do
outro, uma burocracia dominante. Eis uma perspectiva
que, em caso e tempo algum pode aceitar-se, pelo seu
carácter redutor, simplista e demagógico.
3. Os dois principais problemas da escola portuguesa
são a falta de exigência e a falta de autoridade. A
falta de exigência lê-se directamente nos resultados
dos alunos e nas estatísticas internacionais. E
deve-se, antes do mais, à escassez de mecanismos de
avaliação intercalar como são as provas regulares
(orais, escritas, práticas) e os exames de âmbito
escolar, regional e nacional. Mas deve-se também à
impossibilidade ou à imensa dificuldade de fazer
reprovar - uso o verbo "reprovar", e não o verbo
"reter", intencionalmente - um aluno que não atinge
os níveis suficientes. Não vale a pena ter ilusões:
a reposição dos níveis de exigência terá de passar
por um período, mais ou menos doloroso, de
crescimento da taxa de insucesso escolar.
Já a falta de autoridade e disciplina no ambiente
escolar tem sido aferida largamente de modo
empírico. Não restam, todavia, dúvidas de que ela
resulta de um estatuto disciplinar frouxo, de uma
prática reiterada de laxismo e da estrutura
"democrática" de gestão. O reforço da panóplia de
medidas disciplinares disponíveis e a existência de
uma estrutura hierárquica de aplicação são medidas
antipáticas que podem, no curto prazo, restaurar a
paz nas escolas - a paz indispensável àquela cultura
de exigência.
Curiosamente, estes dois itens - exigência e
autoridade -, na perspectiva governamental da
"tensão" entre agentes educativos, apontam mais para
uma escola centrada na figura do professor do que na
figura do aluno. A escola não pode abdicar de ser a
depositária de uma missão institucional objectiva: a
transmissão social e "intergeracional" do saber. Ela
não tem, por isso, de se tornar num espaço de
felicidade ou realização individual: tem, isso sim,
de desempenhar uma função.
4. De algum modo, o Governo, com este seu discurso e
com esta sua prática, importou, para o âmbito mais
largo da política educativa, a "centralidade" que o
aluno já detinha na metodologia pedagógica. O que,
para usar um jargão conhecido, significa que o "eduquês"
vai ser agora convertido em "politiquês". Eis o que,
aliás, está bem patente na última das novidades
dadas pela ministra da Educação: a de que vão ser
abolidos os "trabalhos de casa". E mais ainda, na
sua justificação: a de que os "trabalhos de casa"
feitos em casa reproduzem a discriminação social ou
"sócio-económica". Julgo que não vale sequer a pena
dissertar sobre o tremendo erro que esta medida
representa e o que ela implica para a indução ao
estudo, a virtude do esforço, a aprendizagem
individual e o sentido da responsabilidade ou do
dever. Mas, ao menos - agora que se descobriram os
inúmeros méritos da avaliação "parental" -, que se
reconheça que os "trabalhos de casa" são a ligação
mais próxima e imediata dos pais à escola, a ocasião
privilegiada para os filhos falarem sobre a vida
estudantil e os pais formarem uma opinião sobre o
meio escolar. E quanto ao inacreditável argumento
social, ele arranca do mais preconceituoso dos
preconceitos, esquecendo a mole humana de pais que,
sem estudos próprios, se preocupam diariamente com a
frequência escolar dos seus filhos.
5. Tudo está, portanto, em ver alunos, pais e
professores como actores aos quais cabe, entre
direitos vários, a realização de uma função social
de primeiro relevo. Com o actual discurso,
desapareceu o desígnio funcional e todos os dias
esmorece o prestígio dos professores, agora
desautorizados pela ministra. Receio bem que, por
entre aplausos e encorajamentos, se esteja a
acreditar num mito. Jurista, deputado (PSD)
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