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Diário de Notícias - 19
Jun 06
"É preciso largar os
congelados no chão e abraçar o filho quando se chega
a casa"
Sónia Morais
Santos
Pedro Saraiva
Muitos pais lastimam que os seus bebés não venham
equipados com manual de instruções. Este livro
pretende ser esse manual que eles não trazem?
Não é bem um manual de instruções... A ideia
deste livro é tirar um bocado aqueles momentos de
angústia que perturbam. Que não deixam os pais
assistir ao filme da parentalidade em paz e sossego,
porque incomodam. E esse filme é tão bom, tão
extraordinário, tão único que não deve ter ruído.
Foi isso que tentei fazer.
O livro é muito prático e parece não descurar
qualquer tipo de detalhe, da higiene à alimentação,
do sono ao desenvolvimento psico-motor. Tal como um
manual de instruções...
Essa foi uma das grandes preocupações: que tipo
de livro seria este? Porque eu sempre tive horror à
ideia de escrever para os pais utilizando o jargão
médico. Acho desadequado e desinteressante. Por
isso, o livro tem uma linguagem coloquial e é muito
do dia-a-dia. É um livro que reflecte o quotidiano
dos pais e dos bebés. E a minha intenção foi,
sobretudo, que os pais percebessem que bicho é este
que lhes chegou a casa. Que bicho é?
Como funciona?
Como funciona? Como reage? O que quer dizer uma
birra de repente? Porque às vezes estamos tão
ocupados e preocupados com o facto que esquecemos a
essência. Vamos apagando os fogos sem perceber
porque é que eles reacendem.
E os pais, que bichos são? Costuma dizer, e di-lo
logo na Introdução do livro, que nunca houve tão
bons pais como hoje. É assim?
É sempre difícil estar a comparar gerações, a
dizer que uma é melhor do que a outra. Mas creio que
nós hoje somos muito bons pais. Damos imenso tempo
aos filhos, damos proximidade (às vezes até demais,
que eles invadem-nos o espaço íntimo e tomam conta
da nossa vida), desejamos e esforçamo-nos para que
tenham tudo o que precisam. Sim, acho que somos bons
pais.
E o que é um bom pai, uma boa mãe?
É alguém que sente os filhos como algo de
importantíssimo na sua vida. Atenção, eu não disse
único. É bom que uma criança perceba que ela e os
pais são unidades autónomas. Mas um bom pai ou uma
boa mãe são pessoas que estão atentas às
necessidades das crianças, que as educam, com rigor,
com firmeza, sem medo das suas convicções, dos seus
valores.
A importância de dizer "não" na altura certa.
Exactamente. E isso às vezes não acontece. Os
pais estão tão pressionados para serem bons pais que
depois têm medo de seguir os seus instintos. Para
mim, ser bom pai ou boa mãe passa muito por ser
coerente. Se eu achar que os Morangos com Açúcar não
é um programa adequado a uma miúda de nove anos,
tenho de agir em conformidade. Mesmo que ela faça
uma guerra. Mesmo que diga que os amigos vêem. Se eu
lhe explicar os meus motivos - que têm de fazer
sentido - o assunto fica arrumado. E não há mais
discussão.
Ser pediatra é muito mais do que ser médico, não
é?
Penso que sim. E mesmo um médico devia ser mais
do que ser só médico. É preciso dar mais importância
às pessoas do que às doenças. Um pediatra tem, além
do mais, de saber entender a linguagem própria das
crianças. Que é a linguagem dos sentimentos. E, se
houver tempo para a contemplação, os pais são as
pessoas melhor colocadas para o entender.
Mas esse não é justamente o problema dos pais de
hoje? Falta de tempo para contemplar?
Talvez. Mas talvez, antes disso, haja um mau uso
do tempo. O que é preciso é abraçar um filho quando
ele precisa. Largar tudo e abraçá-lo quando se chega
a casa. Largar os sacos com os congelados no meio do
chão e mostrar ao filho o quanto se sentiu a falta
dele. Fazê-lo sentir-se amado. Isso já é mais de
meio caminho andado.
Este livro é sobre o primeiro ano de vida. Já tem
outro na calha, que seja o seguimento?
Para o ano tenciono fazer sair o livro que vai do
primeiro ano aos cinco. E no ano seguinte, o que vai
dos seis aos nove. E, por último, dos dez aos 14
anos.
Como tem tempo para ser pediatra reputado,
professor universitário, pai de cinco filhos e ainda
escrever uma obra destas?
Gosto de fazer muitas coisas e faço uma boa
gestão do tempo. E acho que conta muito o facto de
ser uma pessoa genuinamente feliz e realizada. Acho
que ajuda muito. uando começar a dar banho a um
recém-nascido? Qual a melhor posição para colocar um
bebé a mamar?O que são as fontanelas? Será que o
bebé ouve bem? Deve usar chupeta? Devemos vestir os
gémeos de igual? E se eles se queimarem? E se
engolirem um brinquedo?
O pediatra Mário Cordeiro lança amanhã O Grande
Livro do Bebé - O Primeiro Ano de Vida. Um livro
que procura dar respostas às angústias que todos os
pais têm, mesmo os mais descontraídos, ao longo da
grande aventura que é a parentalidade. |