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Público - 19
Jun 06
Onde as reformas não vão até ao fim
José Manuel Fernandes
Mais autonomia, mais concorrência, mais
avaliação, mais liberdade, mais responsabilização,
logo melhores escolas
Dezenas de milhares de alunos
começam hoje a prestar provas em todo o país.
Objectivo: entrar na universidade, de preferência no
curso que desejam e numa escola pública onde as
propinas são baixas. Daqui por uns meses tomaremos
de novo conhecimento de como, nalgumas disciplinas,
os resultados dos alunos são maus, demasiado maus.
Voltaremos a verificar que muitos cursos que já não
deviam existir vão de novo ficar vazios, enquanto
noutros se continuará a entrar com notas
absurdamente altas. Esta rotina é tão desesperante
que só custa compreender como, neste sector, das
mais pequenas escolas do interior às mais vetustas e
respeitadas universidades, se continua a resistir a
toda e qualquer mudança. Mesmo às mudanças já
anunciadas, que, indo no bom sentido, estão ainda
longe de ser suficientes para reformar um sistema
que consome enormes recursos e entrega, no fim,
jovens mal preparados.
Entre ontem e hoje o PÚBLICO editou alguns textos
cuja leitura não pode deixar de se recomendar.
Ontem, a entrevista com o presidente da Sociedade
Portuguesa de Matemática, Nuno Crato, e o texto de
opinião de um português que já dirigiu uma das
melhores escolas de negócios do mundo, António
Borges. Hoje foi Vasco Pulido Valente que escolheu o
tema da educação para ilustrar onde diverge deste
Governo. Antes já Miguel Cadilhe aqui havia proposto
a privatização de algumas universidades em Lisboa e
no Porto.
Apesar de nem todos os textos focarem os mesmos
pontos e de até divergirem pontualmente, algo os
atravessa: a percepção de que são necessárias
rupturas mais profundas. E mesmo sendo difícil fazer
a sua síntese, há pontos que importa sublinhar.
Primeiro, a necessidade de modificar a cultura
dominante no sistema e com anos de enraizamento no
ministério, afirmando alto e bom som que a primeira
função do professor é ensinar e que do aluno se
espera que estude e se esforce. Parece elementar,
mas não é, pois na descrição das funções do
professor constante da proposta de novo Estatuto da
Carreira Docente o termo "ensinar" nunca é referido.
É como se queimasse os dedos escrevê-lo.
Segundo, há que generalizar uma cultura de avaliação
a todos os níveis. Avaliação dos alunos ao longo do
seu percurso escolar para poder medir os seus
progressos. Avaliação dos professores, acabando com
a ideia de que todos são bons. E avaliação das
escolas e de quem as dirige.
Terceiro, nada pode ser feito sem mais autonomia,
mais liberdade e muito mais responsabilização. Um
dos grandes males do sistema é a macrocefalia da 5
de Outubro. Outro a impossibilidade de
responsabilizar os "conselhos directivos", os quais
deveriam ser substituídos por directores
seleccionados de acordo com a sua competência e
permanentemente colocados sob escrutínio
independente.
Quarto, acabar com os tabus ideológicos que impedem
que as escolas concorram entre si, quer no sistema
público, quer entre o sector público e o sector
privado. Ao Estado compete assegurar que ninguém
fica de fora, mas já não que lhe compete cobrir
todas as necessidades quando outros o podem fazer
melhor e até mais barato.
Quinto, permitir que a avaliação transparente, a
autonomia, a responsabilização e a concorrência seja
apoiada por políticas públicas que permitam aos pais
escolher as escolas para os seus filhos, acabando
com a iniquidade de só os mais endinheirados o
poderem fazer.
Sem tocar nestes pontos, que estão na raiz dos
problemas, pode-se continuar a aparar a sebe, para
utilizar a expressão de Vasco Pulido Valente, mas os
ramos malsãos não deixarão de continuar a
contaminá-la e a consumir recursos exagerados. |