|
Público - 19
Jun 06
Sem virtude não há saúde
Mário Pinto
1."FLEXICURITY". Esta é a palavra da moda na União
Europeia, que quer significar uma combinação de
flexibilidade e de segurança no domínio das relações
de trabalho. Traduzo da revista da UE (Março 2006)
consagrada ao emprego e assuntos sociais, "Agenda
social": "A flexicurity é caracterizada, por
exemplo, por uma protecção relativamente fraca
contra o despedimento e uma sólida protecção
social...". Considerando que a flexibilidade tem
sido sempre combatida pelos sindicatos e partidos
esquerdistas, que a consideram como sinónimo de
desregulação neoliberal selvagem, o programa de "flexicurity",
defendido oficialmente pela Comissão Europeia,
significa que já não é mais possível manter o
paradigma do garantismo inflexível na estabilidade
do emprego, que continua ainda, entre nós, a dominar
a cultura e as instituições.
2. A GENTE ESPANTA-SE. Na revista "Única", do
Expresso do dia 27 de Maio, lê-se que "Gente" se
espantou com o pensamento do dia da Rádio Renascença
sobre "o Código da Vinci". Espantou-se porque o dito
pensamento considerou esse livro como uma ofensa tão
grave ao catolicismo quanto o foram os "cartoons"
para o islamismo; e porque defendeu o boicote ao
filme. Que dizer? Espantoso é o espanto de "Gente";
e que tenha considerado seu papel inquirir se tal
pensamento era ou não era editorial - não fosse a
Rádio Renascença ter opinião mal-pensante a
respeito... Espantoso é que tenha considerado
publicáveis o seu espanto e a sua diligência
inquisitorial. A que título? "Gente" é censora da
Rádio Renascença? Afinal a Rádio Renascença não tem
opinião editorial sobre o Código da Vinci"... Que
alívio! Pois bem: eu aqui me associo ao pensamento
(não editorial!...) da Rádio Renascença. E ao
boicote proposto. Foi o que também fez Umberto Eco,
que boicotou Dan Brown, o autor do Código da Vinci,
e disse que Brown é um farsante ("Gente" dixit).
Ora, farsante é bem pior do que "cartoonista".
Portanto: na falta da solidariedade editorial da
Rádio Renascença, aqui tem a autora do dito
pensamento dois cidadãos com opiniões concordantes
com a sua. E há por aí muitos mais, aos milhões.
3. EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA. Ilustres e prestigiados
defensores do monopólio da Escola Pública, tais como
Vital Moreira e António Nóvoa, têm invocado, como um
dos principais argumentos para esse monopólio, o da
"socialização" igualitária das crianças e jovens,
contra a "guetização" da escola privada e da
família. Pois que lhes preste! Ao mesmo tempo que
gastamos com a educação escolar tanto ou mais do que
os países que estão nos primeiros lugares do
"ranking", o panorama (geral) das nossas escolas
públicas é verdadeiramente assustador como padrão de
socialização e de educação: insucesso, indisciplina,
nível medíocre de instrução, elevada taxa de
abandono escolar, etc., etc.,. Deus nos livre! Esses
ilustres epígonos do colectivismo educativo deviam
dar-nos explicações desta situação: por que
continuamos atolados em conflitualidade e
ineficiência crónicas, no sector público, em
contraste com o que vai nas escolas privadas, sim
senhor. Como diz o nosso povo: "não há maior cego do
que aquele que não quer ver".
4. A QUESTÃO É O MONOPÓLIO. Do que se trata, não é
de ser contra ou a favor da escola pública; é de ser
contra ou a favor do monopólio da escola pública
(monopólio de financiamento). É o monopólio do
financiamento público que constitui a fonte de toda
a impotência de soluções de regeneração, porque os
alunos e os pais, os professores e os educadores, os
cidadãos em geral, não têm alternativa (excepto os
que podem pagar o ensino duas vezes e vão para o
ensino privado). Ora, o direito fundamental à
educação é um direito de acesso à liberdade de
educação, o que implica necessariamente liberdade de
escolha da escola. Não é uma sujeição universal a um
monopólio educativo escolar. O drama é que, sobre
esse monopólio, se estabeleceram interesses
ideológicos e corporativos poderosos, que não deixam
reformar o sistema. Se não houvesse monopólio e a
escola pública fosse obrigada a concorrer com as
escolas privadas em igualdade de condições de
financiamento, as escolas públicas teriam de ser
eficientes e disciplinadas, como as privadas, sob
pena de serem preteridas. E se fossem melhores,
matariam as escolas privadas. Eis a questão.
5. RESPONSABILIDADE PESSOAL. Embora tenha sido
verdadeiramente simpático, o Presidente Cavaco Silva
correu o risco de não ser "simpático" no seu
discurso do dia de Portugal. Porque veio dizer uma
coisa que nos é antipática. Ou seja: que, perante a
crise nacional, era preciso um aumento de
responsabilidade pessoal; o cumprimento dos deveres,
e não apenas gozo dos direitos; esforço individual,
e não apenas reivindicação perante o Estado. Ele
disse: "neste dia 10 de Junho, quero interpelar
directamente os Portugueses, todos e cada um,
exortando-os a reflectir sobre o que desejam e o que
se dispõem a fazer pelo seu País". E ainda: "é
urgente interiorizar a pedagogia republicana dos
deveres cívicos". Penso que esta chamada à
responsabilidade pessoal e ao cumprimento dos
deveres não encaixa muito bem no pensamento
politicamente correcto; o pós-modernismo intelectual
e o vulgar hedonismo egoísta (dois bons aliados)
detestam a questão da moralidade. Mas suponhamos,
por hipótese, que o discurso do Presidente nos
convenceu da necessidade de uma mudança de
paradigma. Suponhamos que, depois da sua
interpelação, muitos portugueses concordam e desejam
corresponder. Perguntemo-nos, então: o que vai cada
um de nós fazer, em concreto? Que deveres vai passar
a cumprir, ou a cumprir melhor?
6. A CULTURA E A EDUCAÇÃO. Não se responde a esta
questão com a Constituição ou um qualquer código
legal. Nem com as ideologias políticas. Isso tudo já
nós temos, e é o que se vê. Falta outra coisa. Falta
uma cultura civil de valores e de virtudes
correspondentes. Ora, não há cultura de valores e de
virtudes sem educação; nem educação sem um projecto
educativo. Eis o que não temos: projecto educativo.
Entre nós, as elites destroem a tradicional cultura
de valores e virtudes com políticas ideológicas de
ruptura intencional, por horror ao humanismo cristão
tradicional: utilizando, por um lado, o aparelho de
Estado, pela estatização da educação e da cultura e
pela estatização do Estado Social; e, por outro
lado, os monopólios comerciais dos "mass media", sem
escrúpulos morais humanistas. O resultado é o que
está à vista, e leva o Presidente da República a
recomendar o cumprimento dos deveres.
7. FONTES. Como é evidente, o Estado laico não pode
ser uma fonte abastecedora de qualquer pensamento
ético vital que dê à sociedade civil uma vertebração
e uma coerência, base sem a qual não há valores, nem
deveres, nem virtudes. Foi o que reconheceu Habermas
(insuspeito de qualquer ortodoxia normativista ou
religiosa) no célebre debate com Ratzinger. Esperar
contribuição das televisões, também não se pode,
porque parece que a moral não é negócio; pelo
contrário. Restam as instâncias não comerciais da
sociedade civil. Quais?
|