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Público - 14
Jun 06
Cavaco pede que
se "deixe actuar" a ministra
Sofia Jesus
Dizem que "o dia é de luta e o tempo de luto". Por isso,
educadores de infância e professores prometem sair hoje
à rua, vestidos de negro, para protestar contra a
proposta do Governo de alteração ao Estatuto da Carreira
Docente (ECD). Numa altura em que o clima de
descontentamento perante as políticas e o discurso do
Ministério da Educação leva os profissionais a aderir
hoje à greve nacional, o Presidente da República, Cavaco
Silva, defendeu ontem que é necessário introduzir
mudanças nas escolas e apelou a que se "deixe actuar" a
governante.
"Deixemos a ministra da Educação actuar com a
experiência e as competências que tem para ver se
aumenta a qualidade no nosso sistema educativo", afirmou
ontem Cavaco Silva, citado pela Lusa, depois de
questionado pelos jornalistas sobre a violência nas
escolas.
À margem de uma audiência com alunos e professores de
escolas do Montijo - integrados num projecto de
cidadania -, o presidente começou por considerar
"lamentável" a agressão de uma docente na sexta- -feira,
numa escola de Lisboa, por parte dos pais de um aluno.
"É uma demonstração de que é preciso fazer mudanças nas
escolas, no sistema de ensino", acrescentou, lembrando
que "existem vários relatórios internacionais que
demonstram a ineficiência" do sistema educativo em
Portugal. No entanto, preferiu "não entrar em aspectos
específicos que estão neste momento a ser objecto de
discussão no âmbito dos diferentes agentes do nosso
sistema de ensino".
Para Paulo Sucena, secretário- -geral da Federação
Nacional de Professores (Fenprof) - que decretou o
protesto de hoje -, as declarações de Cavaco Silva são
"uma generalidade" e revelam "uma posição política de
quem não se quer imiscuir numa área muito complexa" e
"aguarda expectante" a actuação do Governo.
Mas não só para a Fenprof as palavras de Cavaco se
referem só à violência nos estabelecimentos de ensino.
Também para João Dias da Silva, da Federação Nacional de
Sindicatos da Educação, as declarações do Presidente da
República limitam-se à questão da violência nas escolas
e não podem ser lidas como um apoio à ministra, até
porque o Chefe do Estado "nunca o faria numa altura
destas". Para o responsável, o discurso de Cavaco vai
antes no sentido de "apontar um caminho para que o
ministério não se demita das suas responsabilidades" e
sejam garantidas acções preventivas para que os docentes
se sintam seguros na sua actividade profissional.
A greve e a manifestação de hoje foram decretadas pela
Fenprof, mas contam com o apoio de outras estruturas
sindicais, como o Sindicato Nacional dos Professores
Licenciados e o Sindicato Nacional dos Profissionais da
Educação. À paralisação junta-se ainda a Associação
Sindical de Professores Licenciados (ASPL), que se diz
"descrente da bondade inicial do processo de negociação"
e apela à união da classe.
Também a Federação Nacional do Ensino e Investigação (Fenei),
apesar de ter decidido não entregar o pré-aviso de
greve, recomenda, em comunicado, a participação dos seus
associados na manifestação.
De fora daquela que é já a terceira greve de professores
desde que o actual Governo tomou posse fica a FNE, que
decidiu não avançar já para a paralisação mas que já
admitiu "endurecer a luta" caso o Governo não recue
nalgumas das propostas à alteração do estatuto da
carreira.
Milhares em protesto
A imposição de quotas à progressão na carreira e a
participação dos pais na avaliação dos professores são
algumas das propostas da tutela contestadas pela Fenprof.
Outro dos pontos críticos é a intenção do Governo de
transferir para um quadro de supranumerários os docentes
declarados incapazes para dar aulas - uma posição que
levou ontem a Fenprof a admitir recorrer ao Tribunal
Europeu dos Direitos do Homem, caso a tutela não recue.
Mas não é só o facto de a proposta do novo estatuto
"dinamitar os princípios do actual" e "subverter o
sistema" o único motivo da greve que Paulo Sucena espera
ser "muito significativa". É também "o sentimento de
natureza pessoal e colectiva de profundo
descontentamento e até revolta dos educadores e
professores por todo o discurso do ministério
atentatório da sua dignidade".
Por isso espera a participação de "milhares de
professores vindos de norte a sul do País" na
manifestação que se seguirá ao plenário no Parque
Eduardo VII, em Lisboa. Os professores vão desfilar em
protesto até ao ministério, na 5 de Outubro, onde o
sindicato entregará propostas alternativas "para uma
carreira docente digna e valorizada". |