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Público - 12
Jun 06
A primeira Petição Popular de Referendo e a
putativa lei da PMA
Isilda Pegado
Quando a democracia representativa está em crise
seria bom dar mais atenção à participação popular na
vida política. Contudo, o poder acaba de negar o
direito à participação, ao exercício de cidadania e
ao exercício de um instituto constitucional. Hoje,
fê-lo a 80.000 cidadãos... Amanhã...
OParlamento português aprovou lei
que pretende regular as questões humanas, éticas,
sociais e morais que a procriação artificial
levanta. Não é uma simples lei que regule técnicas
de prática médica. É uma lei informadora e formadora
de comportamentos e direitos humanos que definem o
futuro de uma sociedade, o futuro de milhares de
homens e mulheres que, por efeito destas técnicas,
irão nascer ou fazer nascer.
Uma lei desta natureza - procriação - é para ser
usada por homens e mulheres. Não é uma lei de
organização do Estado ou Finanças Públicas.
Destina-se de facto, em primeira instância, aos
cidadãos.
A referida lei fixa soluções que estão muito longe
de um consenso nacional. Só a falta de conhecimento
da lei, que alguns têm gerido criteriosamente,
permitiu a sua aprovação sem um debate público
alargado. Por isso, a democracia portuguesa conheceu
pela primeira vez uma iniciativa de petição popular
de Referendo (PPR). Mais de 80.000 cidadãos
assinaram, e colocaram o número do bilhete de
identidade, nos impressos que correram o país. Foi
uma iniciativa de gente que, só teve como meios a
capacidade de explicar a seriedade e importância
desta lei. Em pouco mais de dois meses.
O Parlamento, e a comunicação social, fizeram eco
desta novidade política que não tem tramitação
claramente definida na lei, nem precedentes. Por
isso, uns (entre eles vários constitucionalistas)
defenderam a suspensão do processo legislativo.
Outros (a maioria) decidiram usar do poder, e
ignorar a iniciativa popular de Referendo, não
interrompendo o processo legislativo e fazendo votar
a lei.
Ao fazê-lo o Parlamento levanta mais uma
inconstitucionalidade que à lei da PMA pode ser
imputada. Será uma inconstitucionalidade formal a
apreciar em sede própria. Negar ao Referendo os
instrumentos para que possa ser feito é um caminho
difícil de trilhas e muito pouco democrático.
Num tempo em que a democracia representativa está em
crise - o descrédito nos parlamentos, a falta de
relação entre eleitores e eleitos, os pouco
abonatórios comentários aos agentes políticos -
seria bom uma maior atenção e zelo à participação
popular na vida política - democracia participativa.
Só adere quem conhece.
No entanto, o poder negou acintosamente o direito à
participação, o direito ao exercício de cidadania, o
direito ao legítimo exercício de um instituto
constitucional. Hoje, negou-o a 80.000 cidadãos...
Amanhã...
Ao fazê-lo, o poder, ignora o povo. Mais, o poder
ignora a Constituição da República Portuguesa - "A
soberania, una a indivisível, reside no povo, que a
exerce segundo as formas previstas na Constituição"
(art. 3º nº1). Também assim, "O Referendo pode ainda
resultar da iniciativa de cidadãos dirigida à
Assembleia da República" (art. 115º nº2).
É evidente que, aos promotores da iniciativa popular
pouco importa que o processo legislativo seja
interrompido na Assembleia da República antes ou
depois da votação. Mas terá de será interrompido,
até a decisão de convocar, ou não, o Referendo. Caso
contrário, esta iniciativa popular consagrada na
Constituição estaria enviazada e sem qualquer
utilidade prática. Diz a Lei Orgânica do Referendo
"A iniciativa popular é obrigatoriamente apreciada e
votada em Plenário" (art. 20º nº8). Serenamente
aguardamos ...
Portugal é um Estado de Direito?
Em Portugal a democracia participativa é uma
brincadeira?
É estranho que um Governo onde o bom-senso e a
prudência têm traçado caminho, esteja sustentado por
um Grupo Parlamentar apressado, de costas viradas
para o povo, com incidentes constitucionais nada
abonatórios (como os do aborto) e que em última
instância está a gerar a "putativa lei da PMA"
porque é também, "a inconstitucionalíssima lei da
PMA". Jurista e Mandatária Nacional do Comité
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