Um dia destes acordei a odiar Maria de Lurdes
Rodrigues, a ministra da Educação. As manchetes
dos jornais diziam que os pais dos alunos iam
avaliar os professores, e atrás destes títulos
vieram os professores aos gritos dizer que isso
era o fim do mundo, e atrás dos professores
vinham os intelectuais do costume a bradar que
os pais são uma cambada de analfabetos que mal
sabem avaliar os filhos, quanto mais os
professores dos filhos. E a bola de fumo
cresceu, cresceu, cresceu, e eu deixei de ver o
fogo que lhe dera origem. Mas pensei: realmente,
não cabe na cabeça de ninguém, em seu perfeito
juízo, ter os encarregados de educação a
classificar professores que mal conhecem ou cujo
trabalho pura e simplesmente ignoram...
O problema é que havia um pequeno fogo de onde
saía todo este fumo. E foi preciso ler a
entrevista da ministra no Público para
perceber que, uma vez mais (e presumo que sem
recurso a empresas de comunicação...), o peso
corporativo dos professores caiu ao colo de
muitos jornalistas e o que saiu nos jornais foi
apenas a cortina de fumo para pôr o País aos
gritos.
Lendo o projecto do Governo, o que se percebe é
um esforço meritório para aproximar os pais das
escolas, deixar as escolas abrirem-se aos
encarregados de educação e permitir que, em
casos devidamente previstos (por exemplo, quando
os pais participarem activamente nas reuniões
das escolas), aqueles que estiverem em melhores
condições possam efectivamente fazer uma
avaliação sobre os professores. Mas essa
avaliação não é única nem taxativa - ela será
ponderada num conjunto vasto de outros critérios
e pontuações, de que resultará enfim uma
avaliação do professor. Não são portanto os pais
que vão decidir quem são os bons e os maus
professores - os bons pais apenas vão
contribuir, à sua pequena escala, para uma
avaliação global.
Tão diferente, não é? Tão defensável, certo? Por
que raio andam sempre a atirar-nos areia para os
olhos? Quem é que tem gosto em enganar o incauto
leitor de jornais?
Um dia destes acordei a odiar a ministra. Mas
depois de a ouvir, adormeci a gostar
sinceramente do seu trabalho. Lamentavelmente,
ao mesmo tempo, adormeci a gostar menos de
muitos dos meus colegas jornalistas...