Em Espanha, a propósito da alteração da Lei da
Educação, os professores denunciaram os quatro
mitos que consideram responsáveis pelo fracasso
do sistema:
- O mito de aprender fazendo; o mito da
igualdade; o mito do professor amigo; o mito da
educação sem memória.
Declararam-se também, maioritariamente,
simplesmente fartos:
- Da falta de esforço; da falta de autoridade na
aula; do excesso de especialização; da
integração sem meios; da deterioração do ensino
público.
Interrogo-me se, em Portugal, os professores
(não só os "pedagogos", não os teóricos, não os
sindicatos) não dariam do sistema português, dos
seus mitos e ameaças, uma imagem aproximada.
Fiz toda a minha aprendizagem em escolas
públicas. Descontando o muito que aprendi em
minha casa, é-me hoje possível confirmar sem
sombra de dúvida, o quê e o quanto me foi
ensinado nessas salas de aula.
A escola do Estado Novo veio a ser acusada de
mil e um defeitos, descrita como soturna e
repressiva. Porém a minha geração, oriunda das
mais diversas classes sócio-económicas,
aprendeu. E guarda desse tempo uma memória mais
banhada em ternura e nostalgia que marcada pela
frustração ou revolta.
É certo que eram ainda muitos os que não
chegavam lá. E se "chegarem todos lá" se tornou
justamente um objectivo, a questão que se coloca
é a factura a pagar por uma massificação sem
qualidade e com os fracos resultados que
conhecemos.
Os meus filhos passaram todos pelo ensino
público que continuei a mitificar como uma
experiência indispensável num processo escolar.
Deram-se bem.
A última vez que fui a uma reunião de pais, o
progenitor da pior aluna explicou-me que o facto
de a minha filha ter boas notas se devia a nós
termos uma biblioteca em casa e ele não.
Pareceu-me uma justificação simplista mas
elucidativa de um estado de espírito
autojustificativo que marca, em grande parte, o
conformismo dos pais em relação aos seus filhos
estudantes.
Nos últimos 30 anos, a educação tem sido campo
de experiências sucessivas, com leis e meias
reformas, tornando cada geração uma grande
cobaia, na qual se testam teorias e teimosias.
Simultaneamente caíram intramuros escolares
novos e agudos problemas sociais que deviam ter
resposta a montante e a jusante, mas não têm.
A escola transformou-se num espaço multifunções,
exigindo-se que faça tudo menos ensinar:
intervenção social, psicologia, tratamento da
pré-deliquência, substituição da rede familiar,
prevenção da violência doméstica, remédio para o
abandono, a subnutrição, a doença e ainda o
esforço diário de contrariar uma cultura de
irresponsabilidade e laxismo.
A classe dos professores é tida como uma das
mais relevantes socialmente e, paradoxalmente, é
uma das mais desrespeitadas. Para o que se lhes
pede, são escassos os instrumentos de que
dispõem para, com autoridade e eficácia,
responder aos problemas daquele quotidiano.
Para quem, como eu, trabalha com os sistemas
sociais no combate à reprodução geracional da
pobreza e da exclusão, o qual só é possível num
quadro de equidade no acesso a competências que
permitam uma progressiva e efectiva
autonomização pessoal, para que o filho de um
pobre não seja fatalmente pobre, o filho de um
imigrante cresça integrado, um filho da droga
não se drogue, a filha de uma mãe adolescente
não tenha um filho aos 14 anos, etc., etc., sabe
bem que o sistema de educação é determinante.
Mas o sistema de educação é determinante para
educar, para dar competências, preparando para a
vida e para a autonomia, no saber pensar e no
saber fazer, as novas gerações. Não é
determinante para substituir a família, o
atendimento social, o centro de saúde, a
ocupação dos tempos livres ou as comissões de
protecção de menores.
Tem sido assim. Os nossos indicadores são
péssimos. Os resultados estão à vista, com
bolsas de pobreza mais persistentes e um país no
geral mal preparado para competir.
Estão à vista na nossa economia e nas nossas
finanças públicas, nas nossas estatísticas e na
nossa falta de norte e de inovação. Porquê,
então, insistir neste modelo sem futuro que
compromete todos os dias o mesmíssimo futuro
português?