Para gostar de ler é preciso começar por ouvir
ler.
E quem melhor do que os pais para fazê-lo?
O que não formos capazes de fazer não devemos
esperar que outros façam por nós. Elementar,
dir-se-ia. Não em países com a nossa cultura:
por cá espera-se que aquilo que não somos
capazes de fazer o Estado, ou o Governo, ou o
presidente da junta, faça por nós. Se não
fôssemos como somos não necessitaríamos de um
Plano Nacional de Leitura pois ler regularmente
seria como comer, ou ver televisão, ou assistir
a um espectáculo de futebol.
Mas não é. Não são só os nossos maus resultados
nos testes de literacia: todos os índices
revelam, de alguma forma, que estamos na cauda
da Europa, e por vezes chegamos a estar mal
classificados quando nos comparamos com países
muito mais pobres. Os portugueses lêem, por dia,
proporcionalmente, pouco mais de metade dos
jornais que os espanhóis, um terço dos
franceses, um quinto dos ingleses, um décimo dos
nórdicos ou dos japoneses. Não lemos, ponto. Nem
jornais, nem livros. Quem, mesmo assim, anda com
um diário desportivo debaixo do braço corre o
risco de passar por um intelectual.
É natural e salutar que isto preocupe as
autoridades e é notável que nos últimos anos se
tenha desenvolvido um esforço continuado,
teimoso, de criar redes de bibliotecas
municipais e de bibliotecas escolares. Ter um
livro à mão é, pelo menos, um começo. Mas não
chega, pelo que o Plano ontem anunciado procura
ir mais longe e criar hábitos (forçados) de
leitura nos diferentes graus de ensino. Como
ideia é positivo, corresponde mesmo a uma
ruptura com a aceitação passiva de que "não se
pode fazer nada". É também um grito de revolta
contra atitudes tão reaccionárias como elitistas
como as de José Saramago, a quem talvez incomode
que a multidão do "povo" ascenda ao seu nível.
Porque, como sabemos de outros países e outras
sociedades, é mentira que leitura sempre tenha
sido e esteja condenada a ser "coisa de uma
minoria".
Teresa Calçada e Isabel Alçada são duas mulheres
com saber de muita experiência feito e que há
muito, percorrendo caminhos bem diferentes,
muito têm feito para que os livros se tornassem,
na casos dos portugueses, algo tão comum como
ter leite no frigorífico. Mas por mais perfeito
que seja o plano que desenharam e o Governo
adoptou e apresentou, só se lerão mais livros,
mais jornais, mais autores eruditos ou mais
literatura de cordel se o acto de ler, de
declamar, de elaborar sobre o que se leu, e
também de escrever, for tão natural como
respirar. Ora, sejamos directos, para isso não
chega nem o Estado nem a escola: é necessária a
família, é fundamental o papel dos pais.
Porquê? Porque o verdadeiro segredo para que os
finlandeses surjam no topo da escala da
literacia mesmo utilizando uma língua
estranhíssima e rara é porque ouvir ler, depois
ler, depois declamar, é algo que integra a sua
cultura há séculos. No passado, quando o país
ora estava submetido pelos suecos, ora pelos
russos, os que tinham autoridade nas comunidades
eram os que mais poemas conseguiam declamar.
Hoje, quando os vemos no topo de todos os
rankings, devemos lembrar-nos que isso sucede em
boa parte porque nas longas noites dos seus
Invernos (ou ao sol da meia-noite dos seus
Verões) os pais e as mães lêem histórias aos
filhos. Não os entregam às televisões -
cativam-nos com contos eternos e fábulas
encantatórias. Nisso batem todos os recordes do
mundo. Por isso estão depois entre os povos mais
capazes de reagir à modernidade, porque desde
muito novos estão treinados para ler,
compreender e raciocinar.
Sejam pois bem-vindas as iniciativas previstas
no Plano Nacional de Leitura - mas sejam ainda
mais bem-vindos todos os que tirarem proveito
dos livros que têm começado a estar ao alcance
de um empréstimo, à distância de um braço capaz
de escolher a leitura que em centenas de
bibliotecas públicas lhes é ou será oferecida.
Porque o Estado fez o que devia - agora cabe aos
cidadãos, e sobretudo aos pais, deixarem de
pedir e fazerem o que lhes compete. Só eles
podem ler histórias aos filhos antes de estes
adormecerem...