O país irreal em que vivemos, com férias pagas
no Brasil e automóveis para todos os gostos, não
se compadece com diagnósticos desagradáveis que
anunciam o fim deste feliz estado de coisas
Como seria de esperar, os Prós e Contras, desta
semana, não bateram nenhum recorde de
audiências. Uma coisa é ter o prof. Manuel Maria
Carrilho, no centro de uma irresistível
peixeirada sobre os vícios do jornalismo e as
sinistras conspirações que afundaram a sua
campanha; outra é ter que ouvir o dr. Medina
Carreira dissertar sobre a despesa pública e a
inviabilidade do Estado. No primeiro caso, está
garantido o sucesso: não há ninguém que não
goste de uma boa polémica, principalmente se for
uma polémica inútil que serve apenas para
exercitar os ânimos e as pequenas vaidades de
cada um. No segundo, o caso complica-se: a crise
económica é um tema árido que não suscita
qualquer entusiasmo. O país irreal em que
vivemos, com férias pagas no Brasil e automóveis
para todos os gostos, não se compadece com
diagnósticos desagradáveis que anunciam o fim
deste feliz estado de coisas. As previsões do
Banco de Portugal ou do FMI, que confirmam o
desastre das contas públicas e a fracasso dos
mais variados "Planos", são pequenas nuvens que
não arrefecem o milagre do consumo e a
irresponsabilidade dos políticos. Entre a
retórica da confiança e o inevitável recurso ao
crédito, vamos vivendo alegremente acima das
nossas posses, na certeza de que o Estado, na
sua imensa boa vontade, se encarregará de
assegurar o nosso duvidoso futuro. O já
conhecido pessimismo do dr. Medina Carreira
sobre o futuro do país "real" é algo com que o
país "irreal" obviamente não se incomoda. Não é
em vão que somos o terceiro país da Europa com o
maior número de carros por habitante. E que
acima de nós só se encontra a Itália e o
Luxemburgo.
A análise da crise e das suas consequências
está, pois, entregue a "velhos do Restelo" que
gostam de se alongar nas desgraças, tentando,
com manifesta má-fé, destruir o nosso
justificado optimismo. Ora, como se vê pelo
comportamento dos telespectadores, os tempos não
estão para lamúrias orçamentais que têm o condão
de nos deprimir, impedindo-nos, ainda por cima,
de participar, com a auto-estima devidamente
insuflada, no grande "desígnio nacional" que se
aproxima. Nesta altura do ano, semeada de
futebol, de pontes e de feriados, precisamos,
mais do que nunca, de entretenimento fácil, de
consensos alargados e de nos concentrar na
selecção e nos jogos do Mundial. Uma mão-cheia
de vitórias e veremos se o sr. Jack Welch, esse
gestor excessivamente cotado, se atreve a falar,
outra vez, da imagem "humilhante" que Portugal
tem "no exterior". Ao contrário do que "o
exterior" possa pensar, nós sabemos bem quais
são as nossas prioridades: "a contínua
degradação" do país, que o sr. Jack Welch teve o
desplante de nos atirar à cara, redime-se com o
patriotismo que invariavelmente desponta com o
futebol. Os americanos não conhecem os efeitos
da auto-estima! Mas os relatos que nos chegam de
Évora, onde o povo confraterniza com a selecção
num clima de franca e elevada histeria, revelam
as potencialidades do fenómeno.
Como ainda ontem referiam Luciano Amaral e Mário
Bettencourt Resendes, no Diário de Notícias, há
sempre uns "intelectuais" virtuosos que gostam
de exibir o seu imenso desprezo por este
saudável "entretenimento" que nos engole de
tempos a tempos. Segundo Luciano Amaral, não
percebem as emoções "primitivas" que se soltam
num campeonato de futebol; segundo Mário
Resendes, julgam que o mundo da bola é
"controlado por máfias corruptas". De facto, só
um ser desfasado da realidade, que não reconhece
o carácter saudável da alienação, é que pode
considerar que o futebol é "um mundo à parte"
onde ninguém tem coragem de tocar. Os sucessivos
escândalos que envolvem autarcas e dirigentes
desportivos têm uma importância reduzida, quando
comparados com as alegrias que nos pode oferecer
um jogo de futebol. De qualquer forma, e como se
tem visto, todos estes escândalos acabam por ser
reduzidos a cinzas, depois dos respectivos
processos se afundarem em pormenores técnicos e
peripécias avulsas.
Felizmente a classe política tem outro
entendimento da realidade que a rodeia. O eng.
Sócrates não deixou de ir a Évora saudar a
selecção com uma "palavra de confiança" e com a
garantia de que a equipa conta com o "apoio e
simpatia de todos os portugueses". Ontem foi a
vez de o Presidente da República se juntar à
"sociedade civil" e de receber em Belém os
jogadores da selecção. E a Assembleia da
República, num gesto que só a dignifica, alterou
por unanimidade a ordem de trabalhos do próximo
dia 21 para que os deputados possam ver, no
aconchego do lar, o jogo entre Portugal e o
México. Como é óbvio, depois disto, não há
português que não se sinta no pleno direito de
"alterar" o seu horário de trabalho de forma a
poder seguir atentamente a epopeia de um país
que tem no futebol uma fonte inesgotável de
auto-estima.
Perante isto, é impossível dizer que o futebol,
em Portugal, é apenas um "entretenimento". O
futebol, com as suas emoções à flor da pele e o
seu saudável "primitivismo" é, em Portugal, uma
epopeia que se inicia ciclicamente ao som de uma
intensa e patriótica histeria. Para alguns
especialistas na matéria, a bola cria um
"sentimento de entrega" e de "partilha" que,
aparentemente, não existe, entre nós. Como se
sabe, há países que se unem em torno de
objectivos fúteis (como assegurar o futuro, por
exemplo) ou de um passado comum de que
inexplicavelmente se orgulham. Nós, em
contrapartida, unimo-nos gloriosamente em torno
de uma equipa de futebol e das extraordinárias
vitórias que esta, com um pouco de sorte e um
rasgo de imaginação, poderá vir a alcançar.
Isto, sim, faz-nos pôr uma bandeirinha à janela.
Durante uma ou duas semanas, a pátria vibra ao
som do hino e da bandeira, com o futuro
depositado nos pés de Pauleta ou na cabeça de
Cristiano Ronaldo. Depois, a euforia dos
primeiros dias dá invariavelmente lugar a uma
longa e compreensível depressão. Uma falha de
Figo ou um passo em falso de Deco são capazes de
destruir as ambições de um país que reduziu o
seu destino aos jogos do Mundial. Ao fim de
várias derrotas, os heróis da selecção
transformam-se num grupo de incompetentes. E o
país abraça outro grande "desígnio nacional".
Pode ser Timor (embora os apologistas da causa
comecem a achar que os timorenses não merecem
esse tratamento especial) ou os pobrezinhos do
interior desertificado que o prof. Cavaco Silva
quer agora repovoar à custa da imigração. Desde
que não se ponha em causa o país irreal em que
nos instalámos, a porta está aberta para os mais
improváveis consensos.