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Diário de Notícias - 30 Jun 05
O 'interesse público' e o aborto privado
Alexandra Teté *
Na passada
terça-feira, o senhor ministro da Saúde anunciou que vai
recorrer a clínicas privadas para garantir às mulheres
portuguesas um aborto legal, quando este não é "resolvido" nos
hospitais públicos. Assim, seria prosseguido o "interesse
público", torneando o alegado incumprimento da lei naquelas
instituições e a invocação de objecção de consciência por parte
dos médicos. Não sabemos bem se esta é uma determinação do
Governo ou o desabafo de uma aspiração pessoal do senhor
ministro com os jornalistas. De qualquer modo, trata-se de uma
orientação "chocante", precipitada e perigosa, como passo a
explicar.
Em primeiro lugar, não está provado que em Portugal os hospitais
incumpram a lei. Não se conhecem números, queixas, relatórios,
etc. Infelizmente, sobre esta matéria pouco ou quase nada
sabemos. Por isso mesmo, é da maior importância o famoso estudo
encomendado pelo Parlamento para conhecer realmente a realidade
do aborto (legal e clandestino) em Portugal, que finalmente foi
aprovado. Parece que o senhor ministro prefere as suas
suspeitas.
Por outro lado, não se vê porque é que nas clínicas privadas
estaria garantida a uniformidade de critérios que se alega
faltar nos hospitais públicos. Não se compreende porque é que os
critérios que seriam seguidos nas clínicas privadas seriam mais
justos, razoáveis ou equilibrados que os que vigoram nos
hospitais públicos. Nem se percebe porque é que nas clínicas
privadas haveria menor recurso à objecção de consciência.
Será que se está simplesmente a tentar legalizar um conjunto de
clínicas que não só trabalham em Portugal de forma ilegal como
praticam o aborto a pedido? A notícia de terça-feira neste
jornal "Não dá jeito agora o bebé, não é?..." parece apontar
nessa direcção.
É difícil perceber qual é a ordem de prioridades deste Governo
e, em particular, do senhor ministro da Saúde, nos assuntos
relacionados com a saúde dos Portugueses. Há dias afirmava ser
"irrelevante" que milhares de Portugueses estejam em lista de
espera para cirurgias nos hospitais. Porque não se lembrou o
senhor Ministro de protocolar estas cirurgias com clínicas
privadas? Não são estas do interesse público?
Ou será que na base desta preocupação do senhor Ministro da
Saúde com o "interesse público" está a secreta esperança de que
as clínicas privadas não sejam demasiado escrupulosas e
dispensem pruridos de consciência? Assim, o senhor Ministro
conseguiria liberalizar o aborto, na prática, passando-o para o
sector privado e para a opacidade, a expensas dos contribuintes.
E porquê esta prioridade nas vésperas de um referendo que se
assume vir a liberalizar o aborto? Porque a liberalização do
aborto, para alguns, corresponde a uma obsessão ideológica uma
obstinação radical em recusar o valor intrínseco da vida humana.
Senhor ministro: é isto o "interesse público"?
*Associação Mulheres em Acção
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