Os pais andam à nora e
não sabem como ajudar os
seus filhos na educação
da sexualidade, mas isto
não significa que o
Estado deva impor estes
conteúdos nas escolas
sem diálogo. Os bispos
católicos defenderam,
numa nota divulgada
segunda-feira, que «a
família é a primeira
comunidade responsável
pela educação das
crianças, dos
adolescentes e dos
jovens». O debate também
divide católicos.
«Os bispos têm razão,
mas não têm toda»,
argumenta Maria da
Conceição Moita,
ex-professora da Escola
Superior de Educação de
Lisboa. «A família é a
primeira responsável
pela educação para a
sexualidade, mas na
prática isso nem sempre
acontece», defende a
docente que fala na sua
condição de católica.
«Os pais não sabem ou
não abordam essas
questões e, se abordam,
fazem-no de forma
ligeira, eventualmente
preconceituosa e não
suficientemente
informativa», sublinha.
O dirigente da
associação Juntos Pela
Vida, Pedro Líbano
Monteiro, defende que o
papel da escola será o
de «sensibilizar» os
pais para a necessidade
de «educar sexualmente»
os seus filhos. Mas
impõe condições: os
encarregados de educação
«devem conhecer
previamente o programa e
quem o vai leccionar».
«A primazia deve ser
dada aos pais», cabendo
à escola «colaborar no
processo». Além disso,
defende que os
encarregados de educação
«devem conhecer
previamente o programa e
quem o vai leccionar».
O documento dos bispos
aponta idênticas
preocupações: «A escola
é subsidiária da família
e [neste campo] compete
à família decidir as
orientações educativas
básicas que deseja para
os seus filhos,
decorrentes dos seus
valores, crenças e
quadro cultural.» Maria
da Conceição Moita
prefere outra abordagem:
«No campo da informação
deve partir-se daquilo
que os miúdos querem
saber e não de um
programa
pré-estabelecido.» Mesmo
que, na escola, os
alunos reproduzam
preconceitos e
estereótipos: «Eles têm
de habituar-se que há
outros que pensam de
outra maneira e não
devem ter como resposta
verdades absolutas» da
boca dos professores.
Uma disciplina como esta
«exige um perfil de
professor para a
educação sexual, atento,
aberto, que não seja
dogmático e que responda
exactamente ao que o
aluno pergunta: nem mais
nem menos», defende com
a sua experiência na
formação de professores.
«A educação da
sexualidade ao implicar
relações interpessoais
implica uma educação
para a ética», completa.
Já o dirigente da Juntos
Pela Vida é categórico:
«O modelo que está a ser
implementado é
inaceitável». O actual
método de abordar a
educação sexual
«banaliza a sexualidade
e incentiva a
promiscuidade», critica.
Para Líbano Monteiro, as
questões «científicas»
já são ministradas nas
aulas de Ciências. Os
restantes temas devem
ser opcionais, cabendo
aos pais «decidir se os
filhos frequentam ou não
as aulas». Este
dirigente espera que o
Conselho Nacional de
Educação estipule «o
conteúdo obrigatório» da
disciplina, que «nunca
poderá ser contrário ao
que os pais ensinam em
casa».
Albino Almeida,
presidente da
Confederação das
Associações de Pais (Confap)
afirma que «os pais têm
que confiar na escola
pública sobre esta
questão». A família
«deve envolver-se nas
actividades,
nomeadamente através das
associações de pais, mas
não compete aos pais
seleccionar os
professores, nem tão
pouco escolher os
currículos». Para
Almeida, «é
absolutamente impensável
negligenciar o que os
bispos chamam de
práticas minoritárias,
nomeadamente o sexo
entre adolescentes. São
questões muito
importantes.»
«A educação sexual não
poderá ser só informação
sobre órgãos sexuais, de
luta contra a sida e a
gravidez precoce»,
defende Maria da
Conceição Moita. Por
isso, «a escola tem de
ter toda a prudência»,
para que as crianças,
adolescentes e jovens
«vivam a sexualidade de
forma responsável,
informada e humana».
Mas, alerta, «é
necessário um consenso
para que não haja esta
briga estúpida». Afinal,
diz, «ninguém quer
perverter ninguém -
está-se a querer
ajudar».