Público - 29 Jun 05
Coisas que dão que pensar...
M. Fátima Bonifácio
Àprimeira vista, o caso da Autoeuropa (resolvido há um ano), o
caso da Opel da Azambuja (acabado de resolver) e a actual greve
de professores nada teriam em comum. Acontece que todos eles dão
que pensar sobre as relações entre as direcções sindicais e os
trabalhadores, porque nos três casos os trabalhadores fizeram
prevalecer o entendimento dos seus direitos e deveres sobre as
directivas das suas estruturas representativas.
No caso da Autoeuropa, a manutenção dos postos de trabalho -
representando mais de mil empregos e um contributo muito
significativo para o PIB - dependia de se chegar a um acordo de
empresa que implicava a aceitação das propostas da administração
em matéria de salários e de regime laboral. O público que se
interessa por estas coisas tinha a percepção de que, atrás do
corte nos postos de trabalho, viria, muito possivelmente e a
prazo, a deslocalização da própria Autoeuropa. As negociações
foram duras e prolongadas, e acabaram em bem: os operários
abdicaram de algumas das suas regalias, nomeadamente no que toca
a horários laborais, e não só todos os postos de trabalho foram
salvos, como se consolidou a presença da empresa em Portugal.
Tempos depois, ouvi um membro da comissão de trabalhadores
entrevistado pela SIC-Notícias. Declarou, taxativamente, sem
disfarces nem rodeios, que o Partido Comunista Português (sic)
fora a força que mais se opusera à conclusão do acordo graças ao
qual todos continuavam a ter salário ao fim do mês.
Depois de um longo processo negocial com a administração da Opel
da Azambuja, a comissão de trabalhadores, perante a iniludível
divisão dos operários, decidiu submeter a referendo o acordo
social proposto pela gerência. Uma vez mais estava em causa a
salvaguarda dos cerca de 1200 postos de trabalho a troco de
maior flexibilidade laboral e de um regime remuneratório que não
fosse absurdamente igualitário; em causa estava também, em
última análise, "o futuro da fábrica, a única da GM na Europa
que não tem acordo social" (PÚBLICO, 17/06/05). O referendo
realizou-se. Cinquenta e seis por cento dos trabalhadores
declararam-se favoráveis à proposta da administração. A comissão
acatou os resultados, anunciou que assinaria o acordo e ponderou
demitir-se (o que, de facto, só lhe ficava bem). Dias depois
mudou de ideias: não apenas pusera de parte a hipótese da
demissão, como reconsiderara os resultados do referendo. E com
essa reconsideração concluiu que a sua própria proposta
recolhera, afinal, 44 por cento dos votos, um resultado nada
despiciendo que merecia sem dúvida ficar reflectido no acordo
final. Com este golpe de teatro, a comissão de trabalhadores da
Opel da Azambuja criou uma figura nova: a do referendo em que
ninguém perde e ninguém ganha, fazendo tábua rasa da velha
máxima democrática segundo a qual "por um voto se perde, por um
voto se ganha". Com isto, presumo que tenha voltado tudo à
estaca zero, fazendo pender sobre os trabalhadores a ameaça de
despedimentos ou de deslocalização da fábrica. Entretanto,
enquanto a comissão "não clarifica[va] se pretend[ia] assinar o
acordo social ou não", 70 por cento dos funcionários da fábrica
assinaram o acordo de flexibilidade laboral (PÚBLICO, 17/06/05).
Finalmente, pelo PÚBLICO de 25 de Junho, ficámos a saber como
terminou este braço-de-ferro entre os trabalhadores e... a "sua"
comissão: vergando-se à realidade, esta assinou o acordo de
empresa proposto pela gerência e anunciou o propósito de
antecipar as eleições para uma nova comissão de trabalhadores.
Quanto aos sindicatos dos professores (FNE e Fenprof,
principalmente), convocaram eles uma greve que coincidiu
propositadamente com os exames nacionais do 9.º e 12.º anos,
marcados desde Janeiro, há portanto seis meses. Ou seja,
convocaram uma greve aos exames, e os argumentos para ocultar
este facto capital não apenas irritam pela sua clamorosa
hipocrisia como por suporem que o público é estúpido. O motivo
da "coincidência", explica o sr. Paulo Sucena, um dos eternos
representantes da classe que já não se deve lembrar do que é dar
uma aula (há 16 anos que é presidente do SPGL e há 11 que é
secretário-geral da Fenprof), é que foi agora que o Governo
tomou as ignominiosas medidas que atentam contra os sagrados
direitos dos professores, e, portanto, era "agora" que se tinha
de erguer o machado de guerra. Agora: não podia ser para a
semana nem daqui a 15 dias. Por qualquer motivo que escapa a um
escrutínio racional, a luta, se diferida para daqui a oito ou 15
dias, não produzia efeito ou não produzia o mesmo efeito. E, de
facto, há que reconhecer que não produziria o resultado desejado
- o resultado político de confrontar o Ministério da Educação, e
portanto o Governo, com o monumental falhanço político que seria
a não realização dos exames programados e anunciados há seis
meses. Se a coisa resultasse, raras vezes teríamos presenciado
uma tão flagrante desautorização de um governo. Seria, portanto,
uma grande vitória política da Fenprof ou, mais exactamente, da
força política a que está ligada. Se por acaso tivesse
resultado, já estou a ouvir Jerónimo de Sousa, no Parlamento,
empolgado com o "levantamento nacional" dos docentes.
Ao que tudo indica, esta "luta" é uma luta entre o PCP e o
Governo; a FNE, afecta à UGT e através desta ao PS, alinha
porque não pode ficar atrás da sua concorrente: perderia a
clientela. Mas resta ver que clientela perderia. Afinal, a
esmagadora maioria dos professores - embora a taxa de
sindicalização seja muito elevada - recusou-se a colaborar no
que foi premeditado como um descarado boicote aos exames para os
quais mais de cem mil alunos se prepararam, ou foram preparados
pelos seus professores, ao longo de seis meses. O sr. Sucena e
outros dirigentes explicaram o falhanço da greve aos exames pelo
clima de intimidação que o Ministério da Educação espalhou nas
escolas. Eles andaram por lá e puderam constatar o medo da
retaliação, o pavor dos processos disciplinares; algumas
professoras, de tão amedrontadas, "choravam" (sic), dilaceradas
entre o receio das represálias e os problemas de consciência por
faltarem à solidariedade devida à classe.
O boicote aos exames saldou-se por um rotundo fracasso - embora
os sindicatos, com uma desfaçatez que faz pasmar, tenham
exaltado a "extraordinária resposta dos professores" e
enaltecido a "adesão enorme" à greve. A esmagadora maioria dos
professores, em dissidência aberta com os sindicatos que os
"representam", recusaram fazer de joguetes numa contenda cujos
orquestradores não hesitam em prejudicar centenas de milhares de
alunos para alcançarem os seus objectivos políticos. É bom
sinal.
Tudo isto dá que pensar. Li há dias no PÚBLICO uma carta de um
docente em que este dizia que é uma "hipocrisia" o tratamento de
"colega" que os sindicalistas dão aos professores, a tal ponto -
concluo eu - estão já divorciados da profissão. Na mesma edição
e mesmo ao lado, outro docente deplorava a "multiplicação de
estruturas sindicais", graças às quais mais de 1300 professores
estão dispensados de serviço lectivo e são pagos pelo Estado -
não pelos sindicatos. Muitos dirigentes ou simples funcionários
estão dispensados "há dezenas de anos, desde o início da
carreira". Os de topo, como o sr. Sucena, eternizam-se nos seus
cargos. Não admira que dirigentes destes, inteiramente afastados
da docência e alheios ao mundo da escola, decretem boicotes aos
exames de alunos a quem nada ensinam nem conhecem e queiram
arrastar "colegas" para formas de luta a que estes não aderem.
Tudo mudou no mundo e até em Portugal nos últimos 30 anos -
menos os sindicatos e os seus dirigentes, desde sempre apegados
às mesmas concepções do mundo laboral, fixados nas mesmas
tácticas de luta, aferrados às mesmas exigências e, pelos
vistos, imersos num perigoso autismo. Hoje em dia, quando mais
do que nunca seriam necessários, parece que os sindicatos mais
constituem um problema do que contribuem para a sua solução.
Historiadora