Público - 24 Jun 05
 

Avaliemo-nos uns aos outros

Após a leitura do texto de Paulo Feytor Pinto no PÚBLICO de 21/6/05, pode-se ficar sem saber bem qual o objectivo que orientou a sua redacção.
O autor começa por opor uma experiência interessante do estudo do Código da Estrada a uma experiência desinteressante. Na primeira, o autor activa o seu background cognitivo, enriquecido pelo facto de ser professor de Português, e é mal-sucedido; na segunda (fica apenas implícito), a neutralização desse background permite-lhe passar no exame. (...) A estratégia apresentada para passar num exame em geral é memorizar as perguntas para detectar as "rasteiras que tornam as perguntas mais difíceis". Donde se conclui que não é nada preciso estudar, saber e aplicar correctamente conteúdos de uma disciplina. Mas afinal parece estar aqui o problema dos exames. Um exame só pode avaliar conteúdos e não aquilo que interessa avaliar de facto, ou seja, as competências, as performances, as actuações, e não há no mundo nenhum especialista que consiga fazer um exame assim. (...). Paulo Feytor Pinto quer que num exame se avalie o cumprimento de objectivos como "pesquisar informação para a transformar em conhecimento mobilizável" (mas detectar as "rasteiras" de uma prova não é fazer isso mesmo?) ou "cooperar com os outros em projectos comuns" - repito: num exame. Como, obviamente, nenhum exame faz isso, os exames não servem para nada - conclui o autor em pergunta retórica. Portanto, este artigo tanto podia aparecer a seguir ao exame de 9º ano como em qualquer altura. O que vejo nele é um eco de umas quantas vozes autorizadas que, perante a suspeita de que os alunos portugueses teriam um baixo desempenho escolar e após a brutal confirmação dos relatórios do PISA para o Português e a Matemática - que colocam Portugal num punhado de lugares acima do fim da lista -, insistem na máxima de que se "deve fazer uma avaliação do processo de aprendizagem e não do produto", que é pernicioso para a aprendizagem individual do aluno compará-lo em termos de rendimento de aprendizagem com o aluno do lado e, depois, em transferir essa impossibilidade de comparação para a escala das escolas e, mais ainda, para a escala dos países, lateralizando assim os referidos relatórios. Fiz estágio em 1994 e esta doutrina antinómica estava em grande pujança: os conteúdos não são o mais importante, o que é realmente importante são as competências; os TPC têm muitas vezes o pernicioso efeito de gerar automatismos de resposta sem levar os alunos a pensar, interessa mais que os alunos façam trabalhos de grupo e estimulem a imaginação e a criatividade... Resta saber como é que é possível desenvolver competências sem compreender e memorizar conteúdos, como é que se pode estimular a criatividade sem automatismos muito bem sedimentados (...). Para estas perguntas, nunca houve resposta nem haverá. Se este exame de 9º ano não está bem feito, trabalhe-se para conseguir um mais bem feito; se a avaliação das escolas é cega e não atende às especificidades de cada escola e desanima alunos e professores, então elabore-se um esquema por sectores de avaliação dos resultados dos alunos/escolas (público versus privado; áreas metropolitanas versus áreas rurais/do interior...). Mas não se continue a ignorar, umas vezes candidamente (como é o caso deste artigo), outras vezes de modo mais feroz (como foi a reacção aos rankings), a necessidade de implementar momentos de avaliação fora da sala de aula, com vários níveis de abrangência e que permitam cruzar informações para reconhecer o que se passa - e então partir para a ponderação da melhor maneira de lhe dar remédio.
Está-se mesmo a ver que esta avaliação implica a avaliação da competência do professor. A avaliação do ensino em Portugal é um problema mastodôntico? Quem tem medo de ser avaliado? Ninguém, diz-se, mas o problema estará na isenção dos avaliadores, defende-se, e nas pequenas vinganças, sugere-se, e na má captatio benevolentiae que os colegas professores fazem junto dos alunos, acusa-se. Não, (ainda) não é o exame do 9º ano que está em discussão, afinal.
Ana Cristina Sousa Martins
Professora de Língua Portuguesa

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