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Diário de Notícias - 23 Jun 05
Sem disfarce
Francisco Sarsfield Cabral
O Governo tem contra si várias corporações da função pública. Era inevitável,
desde que quis pôr alguma ordem nas contas do Estado. É normal que grupos
profissionais que perdem "regalias" lutem para as manter. Já é menos saudável
que o façam com tão manifesto desprezo pelo serviço dos cidadãos, razão de ser
da administração pública. Poderia haver, ao menos, alguma hipocrisia, que é a
homenagem que o vício presta à virtude. Mas não a prioridade absoluta que esses
profissionais (ou os que por eles falam) atribuem aos seus interesses
particulares saltou para a praça pública sem tentativa de disfarce.
Magistrados e juízes ameaçam com greves porque lhes cortam nas longas férias.
Mas como explicam eles a dramática lentidão da justiça portuguesa, quando o
nosso sistema judiciário envolve muito mais gente, proporcionalmente à
população, do que os sistemas da maioria dos países europeus? Dirão que a culpa
é dos governos. E é - mas não pelas razões que eles julgam os políticos deram
tempo de mais carta branca às corporações da justiça para mandarem no sistema.
Com os sindicatos de professores o descaramento é ainda maior. Eles dominam o
Ministério da Educação há décadas, conseguindo que o Estado gaste com os
professores mais do que a média europeia, produzindo um ensino péssimo. Os
sindicatos já obtiveram tudo dos governos. A educação é feita para os
professores, não para os alunos - como se viu na tentativa de boicotar os
exames. Mas agora os sindicatos têm o problema da diminuição da população
escolar, fruto da baixa natalidade. Solução aumentar a escolaridade para manter
os empregos.
O Governo tem de vencer estas primeiras batalhas, sob pena de perder a guerra.
Mas a tarefa é-lhe facilitada pela óbvia falta da ética de serviço público dos
contestatários.
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