José
Manuel Fernandes
O fracasso
da greve mostra que há muitos professores que não desmerecem
essa nobre profissão
Há exactamente dez anos, em 1995, também
houve uma greve de professores em época de exames. Era ministra
da Educação Manuela Ferreira Leite, realizavam-se provas de
aferição para entrada na universidade e os grevistas eram
professores universitários que reivindicavam a equiparação dos
seus ordenados aos dos magistrados, o que representava um
aumento médio de 26 por cento.
De então para cá, não voltou a haver greves em Junho-Julho com
impacte sobre a época de exames. Até porque logo em 1995, meses
depois, chegaria ao poder António Guterres, cujos governos
dariam aos professores do ensino superior os aumentos
reivindicados e aos dos outros graus de ensino privilégios de
progressão na carreira únicos na Europa. Sem surpresa, em 2001,
Portugal tinha um dos rácios mais baixos de alunos por professor
de toda a OCDE, a par com o Luxemburgo e a Noruega. Entretanto
havia-se permitido que, no topo da carreira - onde se chega sem
grande dificuldade -, o rácio do salário dos professores em
relação ao PIB per capita se tornasse o mais elevado da Europa.
Naturalmente que esta situação não podia manter-se, sobretudo se
pensarmos que, para não ir mais longe, em 2001 Portugal gastava
(dados da OCDE) 5976 dólares por cada aluno do ensino
secundário, mais dez por cento do que Espanha (que gastava 5442
dólares), obtendo resultados muito piores, quer no que diz
respeito às aprendizagens, quer ao registar índices muito mais
elevados de abandono escolar.
Face a uma situação de grave crise nas finanças públicas, nenhum
Governo poderia deixar de olhar para estes números e concluir
que o sistema em vigor paga demasiado bem a professores que têm
poucos alunos e que lhes ensinam mal. Suspender as progressões
automáticas, proceder à avaliação (das escolas e dos
profissionais), distinguir os bons dos maus, premiar os que
merecem e quebrar a engrenagem infernal que faz crescer os
custos sem correspondência nos resultados é o mínimo que se
poderia exigir a qualquer ministro da Educação. Nenhum professor
que coloque como prioridade do sistema de ensino os alunos, e
não os seus "direitos" ou as suas "expectativas", poderá
discordar da importância de separar o trigo do joio e de
utilizar mais judiciosamente recursos que, sendo
comparativamente generosos, são malbaratados.
Os sindicatos, dirigidos na sua maioria por profissionais do
sindicalismo que se assustam só com a perspectiva de um dia
terem de voltar a dar aulas, reagiram como se esperava: com a
cabeça quente e falta de bom senso e humanidade. Só isso explica
que, quando nem sequer se iniciou a discussão das inevitáveis
alterações à carreira docente e ao regime remuneratório, tenham
optado pela mais cruel chantagem: marcarem greve para uma época
de exames. Isto é, tomarem os alunos por reféns e procurarem,
por todos os meios, provocar uma trapalhada que crie
desigualdades de avaliação num sistema desenhado para tratar
todos por igual. Para os alunos e para as suas famílias,
submetidas à tensão inerente a uma época de exames,
acrescentar-lhes a incerteza de realizarem ou não a prova no dia
marcado raia o sadismo.
Não surpreende por isso que, para os sindicatos, o dia de ontem
se tenha traduzido numa colossal derrota. Com mais ou menos
dificuldade, com mais ou menos dedicação à causa pública e aos
seus alunos, conselhos executivos e milhares de professores
frustraram quase por completo os objectivos da greve. O que
mostra que em Portugal há muitos professores que não desmerecem
essa nobre profissão.