Público - 21 Jun 05
 
Fiasco sindical
José Manuel Fernandes

O fracasso da greve mostra que há muitos professores que não desmerecem essa nobre profissão

Há exactamente dez anos, em 1995, também houve uma greve de professores em época de exames. Era ministra da Educação Manuela Ferreira Leite, realizavam-se provas de aferição para entrada na universidade e os grevistas eram professores universitários que reivindicavam a equiparação dos seus ordenados aos dos magistrados, o que representava um aumento médio de 26 por cento.
De então para cá, não voltou a haver greves em Junho-Julho com impacte sobre a época de exames. Até porque logo em 1995, meses depois, chegaria ao poder António Guterres, cujos governos dariam aos professores do ensino superior os aumentos reivindicados e aos dos outros graus de ensino privilégios de progressão na carreira únicos na Europa. Sem surpresa, em 2001, Portugal tinha um dos rácios mais baixos de alunos por professor de toda a OCDE, a par com o Luxemburgo e a Noruega. Entretanto havia-se permitido que, no topo da carreira - onde se chega sem grande dificuldade -, o rácio do salário dos professores em relação ao PIB per capita se tornasse o mais elevado da Europa.
Naturalmente que esta situação não podia manter-se, sobretudo se pensarmos que, para não ir mais longe, em 2001 Portugal gastava (dados da OCDE) 5976 dólares por cada aluno do ensino secundário, mais dez por cento do que Espanha (que gastava 5442 dólares), obtendo resultados muito piores, quer no que diz respeito às aprendizagens, quer ao registar índices muito mais elevados de abandono escolar.
Face a uma situação de grave crise nas finanças públicas, nenhum Governo poderia deixar de olhar para estes números e concluir que o sistema em vigor paga demasiado bem a professores que têm poucos alunos e que lhes ensinam mal. Suspender as progressões automáticas, proceder à avaliação (das escolas e dos profissionais), distinguir os bons dos maus, premiar os que merecem e quebrar a engrenagem infernal que faz crescer os custos sem correspondência nos resultados é o mínimo que se poderia exigir a qualquer ministro da Educação. Nenhum professor que coloque como prioridade do sistema de ensino os alunos, e não os seus "direitos" ou as suas "expectativas", poderá discordar da importância de separar o trigo do joio e de utilizar mais judiciosamente recursos que, sendo comparativamente generosos, são malbaratados.
Os sindicatos, dirigidos na sua maioria por profissionais do sindicalismo que se assustam só com a perspectiva de um dia terem de voltar a dar aulas, reagiram como se esperava: com a cabeça quente e falta de bom senso e humanidade. Só isso explica que, quando nem sequer se iniciou a discussão das inevitáveis alterações à carreira docente e ao regime remuneratório, tenham optado pela mais cruel chantagem: marcarem greve para uma época de exames. Isto é, tomarem os alunos por reféns e procurarem, por todos os meios, provocar uma trapalhada que crie desigualdades de avaliação num sistema desenhado para tratar todos por igual. Para os alunos e para as suas famílias, submetidas à tensão inerente a uma época de exames, acrescentar-lhes a incerteza de realizarem ou não a prova no dia marcado raia o sadismo.
Não surpreende por isso que, para os sindicatos, o dia de ontem se tenha traduzido numa colossal derrota. Com mais ou menos dificuldade, com mais ou menos dedicação à causa pública e aos seus alunos, conselhos executivos e milhares de professores frustraram quase por completo os objectivos da greve. O que mostra que em Portugal há muitos professores que não desmerecem essa nobre profissão.

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