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Oque é que se passa no céu? Todos temos uma ideia clara
do que nos acontecerá se formos parar ao inferno mais
coisa menos coisa, ardemos lentamente sujeitos às
maiores torturas… Mas e no céu? Em que é que as almas
ocupam o seu tempo? A jogar às cartas, ouvir música e
ver cinema? A conversar com as pessoas que amaram? (e se
forem várias, quem fica com quem?). E como se evita o
aborrecimento se não há um fim à vista? Se calhar o céu
é céu precisamente porque nos deixamos de preocupar com
estas questões… mas não deixa de ser algo aterradora a
perspectiva de nem no céu conseguirmos identificar a
felicidade.
E, no entanto, há quem a pretenda realizar na terra. Um
livro recente de Richard Layard, um conhecido economista
britânico, procura recolocar o conceito de felicidade no
centro das políticas públicas. Layard retoma a tese
utilitarista de Bentham, que entendia que o principal
objectivo de uma sociedade deve ser a maximização da
felicidade de todos de forma igual. Por outras palavras,
uma política deve ser prosseguida quando ela promove a
felicidade do maior número. A dificuldade está em medir
a felicidade. Layard socorre-se dos mais recentes
estudos sobre a felicidade em disciplinas como a
Neurologia, Psicologia e Sociologia para tentar elaborar
um critério operativo de felicidade. Desses estu- dos
podemos retirar algumas conclusões interessantes.
O que é a felicidade?
A primeira conclusão é que a felicidade pode ser medida
ela tem correspondência numa determinada actividade
neurológica no cérebro.
A segunda conclusão é que a felicidade é profundamente
relativa e "invejosa". A nossa felicidade resulta de uma
comparação com a situação dos outros (assim, por
exemplo, se todos ficamos mais ricos a nossa felicidade
individual não tende a aumentar!).
A terceira conclusão é que a felicidade "educa-se"
aquilo que nos traz felicidade muda com o conhecimento,
educação e exposição a mundos diferentes. As nossas
preferências não são estáticas. É por isso que, quanto
maior o nosso conhecimento da arte, maior a felicidade
que ela nos pode transmitir.
A quarta conclusão é que a felicidade aprecia a
estabilidade e a companhia a permanência no mesmo
emprego traz, aparentemente, mais felicidade que
mudanças frequentes para empregos melhores. No mesmo
sentido, os estudos realizados indicam que as pessoas
casadas são em média mais felizes que as solteiras,
divorciadas ou separadas (por esta ordem decrescente de
felicidade…), incluindo, com alguma surpresa, na sua
vida sexual (o que o estudo não diz é se essa felicidade
resulta de ter sexo dentro ou fora do casamento…).
A quinta conclusão é que a felicidade vicia e habitua-se
facilmente. Assim, algo que nos dá grande felicidade
inicial vai diminuindo a felicidade que nos traz à
medida que nos habituamos. Só que, paradoxalmente, se
voltamos a perder essa coisa, a infelicidade que isso
nos traz é muito superior à felicidade que nos trouxe
quando não a tínhamos. Isto explica a razão pela qual o
dinheiro não traz (sempre…) felicidade. A relação entre
nível de vida e felicidade individual é verdadeiramente
relevante apenas ao nível do limiar da sobrevivência. A
partir daí a correlação entre aumento do rendimento e
aumento de felicidade vai diminuindo de forma notável
vamo-nos habituando a gastar o dinheiro que temos! Só
que, se perdermos parte desse rendimento, seremos mais
infelizes do que antes de o termos… É a velha sabedoria
popular de que só damos valor ao que temos quando
deixamos de o ter ou, expressa em sentido económico, de
que o valor de um bem é mais elevado quanto mais raro
for.
O Estado e a
felicidade. Estas conclusões são, nalguns
aspectos, algo banais, mas podem ter consequências
importantes se levadas a sério. Elas colocam um desafio
interessante na definição das prioridades das políticas
públicas ao questionar a sua subordinação ao objectivo
de maximização da riqueza associado ao crescimento
económico e ao permitir introduzir outros elementos a
que as escolhas públicas devem atender (como a
estabilidade). Mas também servem para justificar algumas
das políticas públicas actuais as políticas
redistributivas vêem a sua justificação reforçada pelo
facto de o mesmo dinheiro trazer mais felicidade a quem
menos tem; os impostos e outras medidas podem ser
necessários, como refere Layard no seu livro, para
evitar que as pessoas trabalhem de mais (uma vez que
após certo nível elas deixam de retirar mais felicidade
da remuneração acrescida que recebem).
Há, no entanto, um problema delicado na utilização de um
critério de felicidade para orientar as políticas
públicas. É que a felicidade é, acima de tudo, função
das preferências individuais de cada um. A felicidade é
menos um produto daquilo que nos acontece do que da
forma como concebemos o que nos acontece. É mais
autonomamente determinada (dependente da nossa concepção
do sentido da vida) do que hetero- nomamente
condicionada (dependente das circunstâncias que afectam
o sentido da nossa vida).
É, neste ponto, que se coloca a questão filosófica da
definição da felicidade. Desde logo, a felicidade é
profundamente individual. Nesse caso, não devemos
procurar fazer as pessoas felizes (seria a ditadura da
bondade!), mas, como diz a Declaração de Independência
Norte-Americana, garantir-lhes o direito à procura da
felicidade.
A procura da
felicidade. E há várias formas de procurar a
felicidade. Há os que procuram uma espécie de
"felicidade moral", o que corresponde à ideia
aristotélica de uma vida vivida com um certo sentido
(que pode ser, como defendia São Tomás de Aquino, o
conhecimento de Deus). A felicidade intelectual mas não
sensorial. A felicidade é assim distinguida do prazer, o
que, confesso, não me faz muito feliz! Curiosamente, um
outro utilitarista (Stuart Mill) aceita a ideia de
prazer associada à felicidade apenas não é o prazer que
algo nos traz que determina a felicidade, mas, antes, o
prazer que isso pode trazer aos outros (uma forma de
felicidade que procuro incutir nos outros!). Em sentido
bem diferente, há também a felicidade epicurista ou
hedonista em que o nosso prazer é a nossa felicidade. Só
que o prazer dissociado de um sentido da vida reduz-se a
uma mera satisfação ou contentamento. É um analgésico da
felicidade: alivia mas não cura.
Hoje em dia, a procura da felicidade parece dividida em
dois mundos bem opostos. Os que defendem uma felicidade
modesta, segundo a qual apenas devemos retirar
felicidade das coisas que podemos ter! (não admira que
Santo Agostinho, o seu autor original, também defendesse
que o único verdadeiro amor é aquele que apenas depende
da pessoa que nos ama). Ou os que defendem uma
felicidade pós-moderna, feita de "boas experiências" e
da procura incessante do prazer, liberto de outro
sentido que não a sensação momentânea que nos causa.
Enquanto, no primeiro caso, a felicidade amarra-nos ao
que temos e somos, no segundo, ela transforma liberdade
em instabilidade e insegurança permanentes. No entanto,
se há coisa que os estudos recentes nos mostram é que a
felicidade necessita de estabilidade. O prazer é maior
quanto maior for a sua relação a um sentido da vida (a
atribuição de sentido à nossa vida, o que é diferente do
sentido da vida em geral). É este último que conduz o
prazer à nossa felicidade.
É em relação com o sentido da nossa vida que podemos
encontrar a felicidade. A felicidade é, em larga medida,
uma competência que podemos melhorar. Não estamos
predispostos a ser infelizes mas também não existem
receitas para atingir a felicidade. Acima de tudo e tal
como dizia Thomas Paine, é necessário para a felicidade
do homem que ele seja intelectualmente fiel a si
próprio. E a si o que é que a/o faz verdadeiramente
feliz?
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