Diário de
Notícias
- 12 Jun 05
Acção
dos 'gangs' cresce 460% em 7 anos
licínio
lima
A criminalidade de grupo (vulgo gangs) aumentou cerca de 460 por
cento em sete anos (entre 1997 e 2004), embora a taxa de crescimento tenha
abrandado a partir de 2002. O fenómeno está bem identificado pelas
autoridades nos últimos relatórios de segurança interna, não faltando avisos
a augurar situações como a que se registou, na sexta- -feira, na praia de
Carcavelos. Mesmo assim, o número de crimes cometidos pelos gangs
evoluiu seis por cento entre 2003 e 2004 .
"A evolução geral desde 1997 demonstra uma tendência claramente positiva - à
media de 32,5 por cento ao ano até 2002 -, assumindo maior impacto nos
grandes centros urbanos, onde factores socioeconómicos potenciam a
emergência gradual de um espírito grupal predominantemente vocacionado para
acções delituosas em determinadas franjas da comunidade", lê-se,
nomeadamente, no relatório de 2002 do Ministério da Administração Interna (MAI).
Documentos posteriores dão conta de que o fenómeno não pára de aumentar -
até à quintuplicação do número de actos criminosos em sete anos -,
notando-se apenas uma desaceleração do ritmo da taxa de crescimento. No
relatório de 2003 está escrito que, relativamente a 2002, a delinquência
grupal evoluiu 7,1 por cento, enquanto a de 2004, relativamente a 2003,
regista um aumento de quase seis por cento. Entre 1999 e 2000 a evolução do
crescimento atingiu os 58 por cento, e os 36,5 por cento entre 2000 e 2001.
Ao analisar-se geograficamente o fenómeno, em áreas de jurisdição da PSP,
verifica-se que incide em Lisboa (61%), Porto (26%) e Setúbal (5%). O
conjunto dos três distritos representa 78,7 por cento do total.
Embora se trate de um tipo de delinquência tipicamente urbana, verifica-se o
aumento do chamado crime spree, em que os mesmos autores cometem uma
série de incidentes, do mesmo tipo e num curto espaço de tempo, em
diferentes zonas geográficas, usando, em geral, viaturas furtadas. Este
fenómeno está a evoluir desde o ano 2000, sendo alvos preferenciais os
postos de revenda de combustível, lojas de equipamento informático e de
telecomunicações e as grandes superfícies. Em 34 por cento das ocorrências,
cujo alvo foi pessoas, os gangs usaram armas de fogo do tipo
pistola/revólver, seguindo-se os sprays (27%) e armas brancas (25%).
À criminalidade grupal está associada a criminalidade juvenil (jovens entre
12 e 16 anos). Nos últimos anos, os meios urbanos foram férteis na criação
dos chamados gangs de menores. "Desde os pequenos delitos, aos
assaltos em bando a automóveis, pessoas e estabelecimentos, assiste-se
actualmente a uma delinquência juvenil caracterizada por um forte 'espírito
grupal', onde a liderança e a organização interna assumem pontos comuns,
típicos de associações criminosas, viradas para a especialização de
determinados crimes, com recurso crescente à utilização de armas", lê-se num
dos relatórios do MAI. "Uma das características destes gangs é
precisamente a gratuidade, ou seja, as suas acções exercem-se não com vista
a um objectivo, mas sim para exteriorizar um acto agressivo que não se
consegue manter", sublinha-se, observando-se em seguida "É comum verificar
nos jovens delinquentes uma certa necessidade de 'valor e de poder',
servindo o crime como forma de colmatar essa necessidade."
Segundo o mesmo relatório, trata-se de jovens vítimas de relativo abandono
afectivo e familiar, sendo o furto, por regra, pratica- do como um acto de
carência afectiva. O abandono escolar e a inactividade, muitas vezes
seguindo o exemplo dos progenitores, são apontados também como causas, às
quais se acrescentam razões económicas, desmotivação e revolta.
Os vários documentos do MAI demonstram que o fenómeno está devidamente
estudado. Só faltam as soluções para o combater.