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Departamento da
Pastoral Familiar da Arquidiocese de Braga
- 02 Jun 05
Educar para a felicidade
Helena Guimarães
Gestos extremamente simples podem engendrar, por vezes,
interessantes reflexões. Pensemos em educação e em valores.
Retenhamos o problema da solidão afectiva que perpassa os
nossos deprimidos e doentes ambientes familiares… Face a este
cenário, enquanto pais, desencadeemos atitudes exequíveis que
permitam, de forma espontânea e natural, aglutinar uma
polifuncionalidade profícua no que toca à resolução desses
problemas, descendo até ao nosso quotidiano e a hábitos
ritualísticos que se estão, infelizmente, a perder, como o acto
de contar histórias às crianças, povoando da cor da imaginação o
momento que precede o salutar adormecer à noite.
Efectivamente, se ponderarmos bem, este momento mágico que
corresponde à leitura de uma breve narrativa a uma criança pode
concentrar em si benéficos efeitos relativamente à aproximação
do visado e da sua família (pais, avós, irmãos mais velhos,…),
podendo inclusivamente a altura ser aproveitada para despoletar
o diálogo, chamando‑se a atenção para uma eventual ilação moral
da história, para o significado dos comportamentos das
personagens e para o extrapolar dessas mesmas situações para o
universo em que a criança se inscreve. Isto quer dizer que ler
um texto não é um acto inocente. Desde a escolha criteriosa dos
conteúdos e imagens dos livros até à entoação e polifonia
prosódica com que se conta a história, envolvendo a criança na
mesma, convidando‑a a recriá‑la, a terminar frases (exercício
viável pelo facto de os pequeninos apreciarem a repetição dos
mesmos textos) ou completar palavras (apenas por nós começadas),
a interpretar imagens, a comentar a acção dos intervenientes de
acordo com o que julga recto ou não, nenhum destes procedimentos
deve ser descurado pelos educadores. É por este tipo de leitura
de fruição que passam aspectos como o estreitamento de laços
familiares e o desenvolvimento de aptidões de comunicação. No
respeitante a este último aspecto, refiro‑me à aprendizagem
linguística, mas também a implicações no campo da socialização,
expressão de afectos, valorização do espaço familiar como
autêntico lar de acolhimento e felicidade.
Escusado será lembrar que o reconto da tradição oral, recriada e
ajustada ao gosto infantil, permite reatar o fio da memória com
as gerações precedentes. Um outro aspecto a não descorar é o
facto de a relação da criança com o maravilhoso dos contos
contribuir para que aquela cresça saudavelmente, ajudando-a a
estabelecer os limites entre o imaginário e o real.
Nesta abordagem da leitura como entretecer de vínculos
familiares, não podemos obliterar a questão do genuíno prazer de
estar em e com a família. A partilha de textos com
os mais novos, designadamente através da leitura ou do reconto,
é um espaço privilegiado de educação. Por conseguinte,
fomentemos e implementemos, como pais responsavelmente
conscientes, esse simples gesto de fruição para os pequenos, que
se encantam ao percorrer, pela mão dos mais velhos, recônditas e
inauditas constelações de criatividade. Para os mais crescidos,
os contadores de histórias, pode ser uma oportunidade de
rejuvenescer ao recuarem ao tempo de memórias aprazíveis de um
tempo de infância casto e isento de medos, preocupações,
stress, angústias e pressa. E, sobretudo, não desprezemos o
pertinente postulado de que a educação para os valores e para a
felicidade também passa pela cultura da reabilitação da leitura,
antes da calorosa e ancestral formulação dos bons sonhos.
Contrariamente ao que sucedeu com a caixa de Pandora, da
abertura de um livro talvez possa sair a felicidade das famílias
do presente e do nosso amanhã… Por isso, urge implementá‑la já!
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