Natalidade
Há cada vez mais mães que trabalham e pais desempregados
Por Alexandra Campos
Há cada vez mais mães a trabalhar e pais desempregados. É
uma das conclusões dos resultados provisórios sobre a
natalidade em 2003, divulgados ontem pelo Instituto Nacional
de Estatística (INE).
O estudo
confirma a tendência do aumento do número de mães com
ocupação profissional. Em 1991, apenas 51,4 por cento das
mães de nados-vivos estavam empregadas, enquanto hoje são
71,9 por cento. Inversamente, entre os pais regista-se um
aumento da percentagem de desempregados, de 0,9 por cento em
1991 para 2,3 por cento em 2003.
A natalidade, em termos globais, voltou a cair no ano
passado. Em 2003, nasceram 112.589 crianças, uma redução de
1,6 por cento face a 2002 (114.456 nados-vivos). O estudo do
INE aponta para a existência de ciclos na evolução da
natalidade. O valor de 2003 consolida a variação negativa
dos nascimentos desde 2000, ano que marca o fim de uma fase
de crescimento da natalidade que começara em 1995.
Apesar de haver uma aparente coincidência entre os dados, o
aumento do trabalho feminino e a baixa de natalidade podem
não ter uma relação de causa-efeito. Segundo a socióloga
Anália Torres, é necessário desmistificar, de uma vez por
todas, a ideia feita de que quanto maior é a taxa de
actividade feminina menor é o índice de fecundidade. Pelo
contrário, há uma "correlação positiva entre" estes dois
indicadores. Por alguma razão é que países como a Espanha, a
Grécia e a Itália - onde a taxa de actividade feminina é
mais baixa - são aqueles onde os índices de fecundidade são
menores no contexto da União Europeia (cerca de 1,1 filho
por mulher), nota.
Portugal encontra-se, a este nível, nos valores médios, com
um índice de fecundidade da ordem dos 1,5 filhos por mulher.
E os países onde estão a nascer mais crianças são os
escandinavos (1,8 a 1,9 crianças por mulher), justamente
aqueles onde a taxa de actividade feminina é mais elevada.
Nestes países, as elevadas taxas de natalidade devem-se, não
ao facto de as mulheres ficarem em casa, mas sim às
políticas de apoio à maternidade e paternidade e à
multiplicação de respostas sociais, acentua. Para se ter uma
ideia, as licenças de parentalidade pagas duram um ano
inteiro e nas creches há uma educadora para cada quatro
crianças.
Quanto à tendência para a diminuição da taxa da natalidade,
este é um fenómeno que se verifica em toda a Europa,
desdramatiza Anália Torres, sublinhando que esta realidade
não afecta a família enquanto instituição. Neste momento,
nenhum país do grupo dos Quinze da União Europeia tem a taxa
necessária para a reposição das gerações (2,1 filhos por
mulher).
Mais filhos fora do casamento
Em 2003, mais de um quarto dos nados-vivos foram gerados
fora do casamento, mais sete por cento do que em 1998.
Dentro deste grupo, 80 por cento são provenientes de pais
que vivem em coabitação, mas que não casaram. É no sul do
país que ocorrem mais nascimentos fora do matrimónio, com
valores bastante acima do valor nacional (26,9 por cento).
Pelo contrário, as regiões dos Açores e do Norte registaram
os valores mais baixos, com 16,9 por cento e 17,5 por cento,
respectivamente.
A percepção de que a informalidade da relação parental
dificulta a natalidade é outra "falsa ideia", no entender de
Anália Torres. Pelo contrário: com altos índices de
fecundidade, os países escandinavos são os que apresentam
maiores taxas de filhos fora do casamento, divórcios e
coabitação, sublinha a socióloga. Também aqui Portugal se
encontra nos valores médios, com mais filhos fora do
casamento e divórcios do que outros países do Sul da Europa.
Já o adiamento da maternidade parece um facto incontornável:
os resultados da natalidade em 2003 demonstram e reforçam
esta tendência. A proporção de mães com idades até aos 29
anos foi de 55,2 por cento, um decréscimo de 16 por cento em
relação ao valor de 1991.
Também a tendência para os filhos únicos se mantém: 54,3 por
cento dos nados-vivos em 2003 corresponderam a nascimentos
de primeiros filhos, 33,4 por cento foram relativos a
crianças já com um irmão e 12,3 por cento referem-se a
terceiros ou mais filhos. Estes números aproximam-se dos
valores de 2002, o que permite identificar, segundo o estudo
do INE, "de forma inequívoca que se atingiu um padrão na
ordem de nascimentos que só muito lentamente se alterará".
Outro dado que não foge à regra dos últimos anos refere-se
ao sexo dos nados-vivos: continuam a nascer mais rapazes que
raparigas, um fenómeno que se verifica há três décadas. A
relação de masculinidade à nascença (indicador que relaciona
o número de nascimentos masculinos por cada 100 nascimentos
femininos) foi de 107, menos um rapaz que em 2002.