Público - 9 Jun 04
Um Tema Europeu
O futuro do modelo social europeu era um bom tema para debater nesta
campanha, mas nas acções de propaganda apenas serviu para tiradas
demagógicas
De raspão, e maltratado nas acções de rua comicieiras, um tema
europeu entrou discretamente nesta campanha: o futuro do modelo
social europeu.
Primeiro falou Sousa Franco, a 1 de Junho, ao "Diário Económico": "É
evidente que [na Europa] a sustentação financeira da segurança
social tem pés de barro e existe necessidade de algum rigor na
concessão de benefícios sociais. Mas isto não em Portugal, que tem o
modelo social mais atrasado dos Quinze". E, mais adiante: "O modelo
social europeu tem de ser ajustado (...) para que não seja uma pedra
no pescoço da UE".
Deus Pinheiro, no dia seguinte, acrescentou ao mesmo jornal: "[O
modelo social europeu] só é sustentável se introduzirmos regras
internacionais (...) como não aceitar dumping social ou ambiental".
E, como a "segurança social na Europa é um sistema (...) em que os
descontos dos activos pagam as reformas dos não activos, vê-se que
temos um problema crucial. Para pagar as reformas dos activos,
precisaríamos de ter um influxo que os activos, só por si, não
conseguem disponibilizar, o que vai obrigar a Europa a tomar medidas
como o aumento da idade da reforma e a diminuição da generosidade
das pensões".
Trata-se de posições de partida sensatas que, de resto, vão ao
encontro do que têm vindo a dizer economistas reputados como o
socialista Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal - "se
quisermos que a Europa não entre em declínio e tenha dificuldades
crescentes para resolver os seus problemas sociais" teremos de
aceitar mais imigrantes, trabalhar mais anos e ter mais filhos - ou
o antigo ministro das Finanças de Mário Soares e actual mandatário
da coligação, Ernâni Lopes - "para preservar o essencial do modelo
social europeu, temos de ir evoluindo, de preferência de forma
gradual, mas consistente", aproximando-o do modelo americano.
Trata-se também de coisas corajosas para dizer durante uma campanha
eleitoral, mesmo que utilizando a tribuna de um jornal
especializado: ninguém gosta de ouvir que vai ter de renunciar a uma
parte das actuais expectativas.
Era bom por isso que este debate - até porque há seguramente
diferenças entre a forma como o centro-direita e o centro-esquerda
olham para a evolução do modelo social europeu - fosse feito com
seriedade. E não apenas instrumentalizando-as e colocando-as fora do
contexto, como anteontem fez Miguel Portas e, no domingo, António
Costa. O primeiro tratou de colocar as declarações de Sousa Franco à
direita e de explorar a contradição com posições assumidas, no
debate português, pelo PS. O segundo omitiu que Deus Pinheiro falava
da Europa e procurou dar a entender que este considerava que as
pensões eram "generosas" em Portugal.
Isto não é sério nem é forma de discutir. Sobretudo quando o futuro
do modelo social europeu integra a agenda política dos países mais
desenvolvidas, que estão a reformá-lo sejam governados à esquerda
(Alemanha) ou à direita (França e Itália). E reformam-no porque
sabem que é insustentável tal com existe numa Europa com uma
economia a crescer lentamente e uma população a envelhecer
rapidamente.
É natural que conservadores que procuram promover-se assustando as
pessoas, como os partidos populistas, finjam ignorar o problema e
façam demagogia. É menos natural que os principais partidos como que
escondam o debate: a prazo vencerá sempre quem falar verdade, mesmo
quando esta é desagradável.
José Manuel Fernandes
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