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Proposta de Lei de Bases da Educação
Intervenção do Primeiro-Ministro, Durão Barroso, na apresentação da Proposta de
Lei de Bases da Educação, em São Bento, e que pretende substituir a actual Lei
de Bases do Sistema Educativo, em vigor em Portugal há 17 anos* (29 Mai 03)
"1 O Governo a que presido tem um desígnio estratégico muito claro: erigir um
sistema de ensino, de formação e de qualificação que se assuma como um dos
melhores e mais avançados do Mundo.
Queremos, dessa forma, responder a dois desafios essenciais:
- primeiro, garantir aos nossos jovens condições idênticas às dos seus colegas
de outros Países mais desenvolvidos;
- segundo, construir as bases de um desenvolvimento harmonioso e sustentado, o
qual passa pelo investimento na qualificação dos Portugueses.
Sabemos bem que esta é uma tarefa ambiciosa, que só no médio prazo pode
concretizar-se.
Daí a urgência que temos em avançar. A razão é simples: a Educação é uma das
áreas em que os resultados do futuro se preparam já hoje.
2 A nova Lei de Bases da Educação, que o Governo ontem aprovou e que hoje
mesmo foi enviada à Assembleia da República, é o elemento central desta visão
estratégica.
Não é um documento de meras ou abstractas intenções. É, sim, um texto fundado em
princípios, valores e objectivos.
Não é uma síntese de simples declarações de circunstância. É, sim, uma Proposta
de Lei que assume compromissos fortes e promove mudanças fundamentais.
Daí a importância do debate que deve gerar um debate que seja sereno e
responsável, racional e mobilizador, apostado em criar as condições que permitam
a Portugal combater o atraso que nos afecta e colocar-nos no lugar de vanguarda
que ambicionamos para o nosso futuro colectivo.
3 Há cinco objectivos essenciais desta Proposta de Lei que me permito
destacar:
- o primeiro e mais decisivo: o aumento progressivo da escolaridade obrigatória
até aos 12 anos. Hoje, a escolaridade é de 9 anos. No futuro passará para 12.
É um forte investimento do Estado na formação dos nossos jovens. Um forte
investimento financeiro, mas também um investimento no mérito, na qualidade e na
exigência.
- o segundo, a integração efectiva entre as politicas de educação e de formação.
O sentido é claro: nenhum jovem deve abandonar o sistema de ensino sem dispor de
um conjunto mínimo de competências profissionais; daí a dupla certificação (para
o prosseguimento dos estudos ou para uma saída profissionalizante), que é
instituída por esta Lei.
- terceiro, a aposta na formação ao longo da vida. Hoje, o fenómeno da
globalização e as profundas mutações científicas e tecnológicas geram novas
situações de analfabetismo funcional. É preciso combatê-los por via da formação
continua;
- quarto, a necessidade de caminhar progressivamente para a profissionalização
da gestão dos estabelecimentos de ensino, sem prejuízo do princípio da
democraticidade e participação.
O voluntarismo tem de dar lugar ao profissionalismo.
Não está em causa o esforço e a dedicação dos muitos professores que hoje gerem
as nossas escolas. Mas um professor é um professor, não é necessariamente um
gestor. A sua vocação primordial é ensinar, não gerir.
- quinto, o compromisso num ensino superior de qualidade, adaptado às novas
exigências da Declaração de Bolonha, mas fundado em duas ideias chave: aposta
renovada na exigência e no rigor por parte das instituições de ensino superior,
preocupação reforçada no que respeita ao aproveitamento escolar e ao mérito por
parte dos estudantes.
As licenciaturas passarão, em regra, para um mínimo de 4 anos. É a convergência
com o espaço europeu. Mas esta convergência não pode fazer-se na base do
facilitismo ou à custa do rigor, do esforço e do trabalho.
Os mestrados, a cargo de instituições Universitárias ou Politécnicas, terão, em
regra, uma componente escolar de 4 semestres. Os doutoramentos, a cargo das
Universidades, incluirão, em regra, uma componente escolar de 6 semestres.
Mas uns e outros, mestrados e doutoramentos, têm de ser fortemente valorizados,
seja pela qualidade do corpo docente, seja pela qualidade da investigação
realizada.
4 Estas orientações e limitei-me apenas à selecção de algumas das principais
orientações têm, de facto, um claro sentido estratégico.
Temos que aumentar a qualidade das aprendizagens. A fase do crescimento da
oferta da educação terá de dar lugar à fase da qualificação. A nossa batalha é a
da qualidade, da exigência, da aposta no esforço e no mérito.
Temos que formar jovens para o mercado de trabalho. Mas temos, sobretudo, que
formar cidadãos livres, conscientes e responsáveis, conciliando especialização
para o trabalho com formação de base aberta ao conhecimento, à inovação e à
mudança, virada para a afirmação dos valores da civilidade e do personalismo.
Temos que combater o insucesso e o abandono escolares. O combate à exclusão
social começa aqui na escola e tem de ser vencido. É um inalienável
imperativo de cidadania.
Temos que apostar na complementaridade entre o ensino público e o ensino
privado, pondo fim ao modelo ideológico actual, que assenta na discriminação e
na supletividade do ensino privado e assegurando, em concreto, tal como a
Constituição estabelece, a liberdade de aprender e de ensinar.
Temos que assegurar, enquanto Estado, o sagrado princípio da igualdade de
oportunidades no acesso de todos à educação e ao ensino. Mas temos de exigir,
enquanto sociedade, que o estudante aproveite, através do seu esforço, a
oportunidade que o Estado lhe dá e corresponda com o seu mérito ao investimento
que a comunidade faz na sua formação.
Temos que apostar na qualidade e na mais valia científica dos nossos docentes.
Mais. Temos que ter docentes motivados e mobilizados, na docência e na
investigação. Nenhuma mudança se faz sem os professores e muito menos contra os
professores. Faz-se, sim, com a sua dedicação, o seu empenho e a sua motivação.
Temos que enfrentar, com determinação, um dos crónicos problemas da nossa
sociedade e, logo, também, deste sector o problema da organização, da gestão e
da administração.
É preciso apostar na participação e na democraticidade.
Mas é igualmente importante reforçar a cultura da responsabilidade e da
responsabilização.
5 Minhas Senhoras, Meus Senhores
Investir na Educação é investir no futuro. É mesmo o maior investimento que um
País pode fazer no seu futuro.
Esta Lei de Bases é isso mesmo o sinal, a aposta e o compromisso no futuro, no
investimento na formação dos nossos jovens, na qualificação dos Portugueses.
Queremos uma Educação que forme e não apenas ensine, que seja factor de
desenvolvimento individual e colectivo, que se assuma como instrumento de
formação do conhecimento, do saber e do espírito crítico dentro da sociedade.
Uma Educação que seja passaporte para o emprego, não uma ferramenta para o
desemprego.
Uma Educação que desafie as exigências da sociedade globalizada com esperança e
ambição, nunca com pessimismo ou resignação.
6 Uma reforma desta natureza não se confina à conjuntura de um ciclo
governativo. Ela é, sobretudo, uma tarefa de gerações.
Daí a importância de um consenso alargado na sua aprovação, depois de um debate
amplo, responsável e participado. Estamos abertos e disponíveis para esse
consenso. Mais. Não só o desejamos como firmemente o incentivamos.
É essa a minha convicção. É esse o meu espírito de abertura. É essa a nossa
responsabilidade. A responsabilidade perante as próximas gerações. A
responsabilidade perante o nosso futuro. A responsabilidade perante Portugal."
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