Público - 10 de Junho

A Religião e o Novo Milénio
Por MÁRIO PINTO

1. De uma excelente agência de informação católica, que distribui internacionalmente o seu serviço pela internet (ZENIT.org), recebi, com data de há três dias, a notícia de um discurso do Cardeal Poupard, pronunciado em Bilbau. O Cardeal Poupard é o Presidente do Conselho Pontifício para a Cultura. Nesse discurso, terá reconhecido que se verificam hoje situações graves de ruptura e desequilíbrio entre a fé e a cultura; e que haverá países em que a grande maioria da população, sendo de baptizados e católicos confessos, vive em clima de minoria cultural. A este propósito, fez a seguinte pergunta: "é possível viver a fé nesta cultura pós-moderna? Ou teremos de contentar-nos com criar espaços protegidos, guetos, cidadelas onde preservemos uma cultura cristã, abandonando este mundo à sua sorte?".

Na América e na Europa, e alargando-se a todo o mundo, fazemos desde os últimos anos sessenta uma grande mudança cultural. As primeiras análises sobre este fenómeno falavam de uma contra-cultura relativamente à cultura tradicional ocidental europeia. Actualmente, a moda é antes falar de multiculturalismo, não raro com intenção relativista. Porém, outras análises sobre a mudança cultural na sociedade ocidental, como a da conhecida historiadora Gerthrude Himmelfarb, preferem falar de "duas culturas". O pós-modernismo seria o rótulo para referir a nova época aberta por esta nova cultura.

A questão religiosa está interior e exteriormente confrontada com a mudança. Não se trata de uma questão nova; pelo contrário, a Igreja nasceu logo em confronto com sociedades e Estados que lhe eram inteiramente hostis: política, cívica e culturalmente. A hostilidade actual de um certo pensamento ideológico (que invoca a laicidade do Estado, mas vem das raízes dos movimentos marxistas revolucionários que consideravam a religião como ópio do povo); a persistência do laicismo iluminista (que teve sempre muito a ver com desígnios de hegemonia política); e uma certa revolta da mentalidade relativista e hedonista corrente contra a Igreja (assinalável por exemplo em reacções de vários movimentos com destaque nos média), não são mais do que novas manifestações de uma recorrente confrontação milenar. Perante a qual a Igreja sempre soube discernir, como se reconhece na conhecida teoria da inculturação.

Não importa, por isso, dar, neste nosso tempo, importância prioritária às vozes hostis; importa muito mais, isso sim, dar atenção à renovação interior da Igreja. É aqui que está o maior problema, e não ali.

2. Poderemos, contudo, estar hoje perante uma diferença importante, nas relações entre a Igreja e a sociedade, se concordarmos com teólogos como Heribert Mühlen, que levantam a hipótese de uma mudança com alcance epocal. E isto não tanto porque o mundo no qual a Igreja hoje vive lhe seja mais hostil (embora se deva reconhecer que a hostilidade se mantém: o século XX foi um século de martírio para católicos, como se relata num livro recente, intitulado "os mártires católicos do século XX). Mas porque é um mundo culturalmente diferente. Que, pelo seu hedonismo prático e pelo crescente relativismo, se distancia das suas milenares matrizes espirituais judeo-cristãs. Mundo no qual, por isso mesmo, a Igreja, "ad intra" e "ad extra", tem de se renovar - não será por acaso que o Papa cunhou para tal o conceito de "nova evangelização". A "nova evangelização" tem por isso de começar pelos que já estão dentro da Igreja. Para além da questão vital de uma renovação pessoal e comunitária, que passa pela conversão contínua e pela renovação pentecostal, a "nova evangelização" repõe também aos católicos a questão do modelo eclesial da primeira época apostólica e dos primeiros padres.

Com efeito, e se as sociedades deste nosso tempo não permitem mais (física e espiritualmente) viver a fé em moldes análogos aos do paradigma experimentado desde há quinze séculos, os cristãos terão necessidade, para o futuro, de recriar novas comunidades cristãs de vida, talvez inspirando-se no paradigma da experiência comunitária da primeira época da Igreja apostólica e dos primeiros padres. Talvez por isso renascem com enorme vigor no seio da Igreja as chamadas "novas comunidades" e novos movimentos. Porque respondem a uma necessidade vital e são discernimento espiritual que se comprova nos frutos.

A este propósito, transcreverei aqui a opinião do cardeal Ratzinger, citada num livro (cujo subtítulo diz: "movimentos de renovação na vida Igreja") de um outro grande nome da Igreja universal, Mons. Paul Cordes, Presidente do Conselho Pontifício "Cor Unum". São de Ratzinger estas palavras. "O que parece como grande esperança universal em toda a Igreja - e isso até no meio da crise que a Igreja atravessa no mundo ocidental - é o surgimento de novos movimentos, que ninguém planeou e ninguém criou, mas que emergiram simplesmente da sua própria concordância com a íntima vitalidade da fé. Aquilo que se torna evidente nesses movimentos -ainda que difusamente - é algo de similar a uma hora pentecostal na Igreja. Estou a pensar em exemplos como o Renovamento Carismático, o Neocatecumenato, os Cursilhos, Focolares, Comunhão e Libertação, etc.. Todos estes movimentos levantam sem dúvida vários problemas, mas isso é invariavelmente o que se verifica em tudo o que está verdadeiramente vivo".

Não quero descartar que esta descoberta das "novas comunidades" católicas possa vir a ser também um remédio para o mundo. Será por aí, e não pelas tradicionais formas organizatórias, que a Igreja poderá contribuir para uma reconstituição humana e humanizante do tecido social. Perdidas ou enfraquecidas as formas de sociabilidade e vida comunitária: da família tradicional, da aldeia, do bairro e da paróquia; vivendo já não (como foi por milhares e milhares de anos) num espaço físico e comunitário estável, mas antes na deslocação contínua e na comunicação à distância; perdida a comunidade humana do viver tradicional em troca de um viver isolado na sociedade global, a própria humanidade terá de refazer as suas formas de comunidade, se não quiser correr o risco de morrer.

Mais uma vez, se os cristãos souberem ouvir o que "o Espírito tem a dizer à Igreja", encontrarão os caminhos do futuro. Quer dizer: se os cristãos se deixarem conduzir pelo Espírito, como crentes, mais do que quererem eles conduzir o mundo, como sábios políticos.
 

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