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Diário de Notícias - 10 de Junho
A última liberdade
Hoje, Dia de Portugal, é adequado considerar que somos um país livre,
democrático e civilizado, integrado no mundo, com avanços no progresso e
direitos humanos.
Um cidadão português possui já todas as liberdades que
constituem o valioso património da modernidade.
Todas, menos uma.
Só nos falta a última liberdade.
Aquela que o Estado não nos deve vir a dar.
Os últimos séculos libertaram os indivíduos e famílias
de milenares cadeias.
A quebra dos privilégios tornou todos iguais perante a
lei e o sufrágio trouxe a capacidade de escolha dos governantes.
Temos liberdade política, social, económica e
religiosa.
Estão garantidos os direitos jurídicos, de
consciência, privacidade, propriedade, iniciativa e circulação.
São valores inestimáveis!
Mas há quem sofra com isto: a liberdade dificulta
muito a tarefa do Governo.
Num Estado de direito, os limites ao poder são
múltiplos.
Os líderes enfrentam as críticas vindas da liberdade
de expressão e suportam os ataques da liberdade de imprensa.
Hoje, é duro ser chefe.
Sempre acossado, o regime mantém ainda um último poder
absoluto sobre a sociedade: todos os futuros cidadãos são obrigados,
durante dez anos (e, em breve, mais), a estar sentados, a ouvir o que
ele determina.
O Estado, que tantas limitações tem sofrido, vai-se
agarrar com unhas e dentes a este instrumento notável.
Por isso, não concederá facilmente a última liberdade:
a liberdade de educação.
A questão anda em grande discussão. Refere-se a
concorrência desleal entre escolas públicas e privadas, a patente
aselhice do Ministério, os flagrantes erros de funcionamento do sistema.
Mas o elemento mais importante da liberdade de
educação não é, como se diz, a capacidade de escolha da escola onde
educar os filhos, liberdade hoje financeiramente condicionada pela
gratuitidade do ensino público.
A questão central é a existência de um programa
lectivo único, detalhado ao pormenor e imposto a todas as escolas,
privadas ou públicas.
Em todos os graus do ensino básico e secundário, todos
os jovens são obrigados a aprender o mesmo.
É verdade que a lei garante a liberdade de educação.
O artigo 43.§, n.§ 2, da Constituição diz: O Estado
não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes
filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.
É verdade que existem até mecanismos legais para
permitir a aprovação de programas especiais e há alguns em
funcionamento. Mas, como sempre em Portugal, o
Governo não se importa de criar mecanismos e excepções limitadas para
salvar as aparências, desde que na prática tudo funcione como ele quer.
Não há qualquer dúvida de que, para a larga maioria
dos estudantes portugueses, o programa é único e manipulado pelas
directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas
do Estado.
Alguns exemplos são sugestivos. Poderíamos falar sobre
a forma aparentemente neutra e científica, mas de facto materialista e
relativista, como são ensinados os temas da toxicodependência ou da
sexualidade.
Basta ver a forma como os jovens são (bem) ensinados a
respeitar o ambiente e (mal) a desprezar o casamento e a virgindade,
para compreender que o ensino respeita directrizes ideológicas bem
marcadas.
Em questões que hoje dividem a sociedade, como o
aborto ou a droga, o Estado tem na escola um poderosíssimo e discreto
instrumento, que lhe permite derrotar a prazo manifestações, jornais e
oposições.
Mas centremo-nos em exemplos mais objectivos.
Recentemente, em conversa com candidatos à
universidade (vindos de escolas privadas católicas), dei-me conta de que
eles tinham estudado várias vezes a história da Primeira República; mas
ignoravam completamente que nessa época as igrejas estivessem fechadas,
as procissões fossem proibidas, muitos padres e bispos andassem exilados
e todo o País vivesse rasgado por uma gravíssima questão religiosa.
Contar a Primeira República sem referir a perseguição
aos cristãos é pior que descrever o salazarismo sem falar na PIDE.
Os livros de História, hoje, são, sobre a República,
tão facciosos como os do Estado Novo eram em relação a si mesmo.
O actual programa de Economia do secundário trata a
globalização e o desenvolvimento com afirmações tão ideológicas que só
falta a assinatura das forças políticas que o conceberam.
Guardo um livro da cadeira de Economia Portuguesa do
11.§ ano de escolaridade de há uns tempos (poucos anos, mas muitas
reformas atrás), que, entre as 17 fotografias que possui, quatro são de
cadáveres da guerra colonial.
Estes exemplos são pontuais, mas mostram a força
incrível que a definição centralizada dos programas dá ao aparelho do
poder.
Tudo é feito, alegadamente, apenas para permitir o
acesso à educação e facilitar a tarefa dos professores, tal como os
antigos ditadores impunham a sua vontade só para bem dos seus súbditos.
Por isso, não se espere para breve esta última liberdade.
naohaalmocosgratis@vizzavi.pt
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