Público - 9 de Junho

Queixa-crime Contra Mulher Não Entra 
Por MARIA LOPES

A presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres (CIDM) está a preparar uma queixa-crime contra os responsáveis do programa Mulher não Entra, da SIC, e todos os intervenientes no episódio transmitido sábado passado, por se considerar ofendida pelo seu conteúdo. Mulher não Entra é interpretado pelos actores António Feio e Rui Paulo. 

Segundo Ana Maria Braga da Cruz, nesse programa, um dos "sketchs" apresentava uma figurante que se intitulava terapeuta, num local chamado de "Fundação para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres". A directora da "fundação" é "uma mulher de ar degradado que bebe cerveja durante um tratamento e exibe uma tatuagem no braço em que figura um coração e a legenda 'Amo-te Ester'", descreve a presidente da CIDM. Outra mulher, que se apresentou como "terapeuta", afirmou dar o seu "contributo para uma sociedade melhor, depilando buços, meias pernas e seios, e dando injecções de hormonas femininas às mulheres mais necessitadas". 

Ana Braga da Cruz considera que "há uma ligação e uma confusão manifestas e óbvias entre o nome da "fundação" apresentada e a Comissão". Na mensagem que deixou no site " http://quarentenatv.tripod.com ", que apela a um boicote à SIC e à TVI durante o mês de Junho, a presidente afirma ainda que "a insinuação de que as mulheres que lutam pela igualdade são mulheres desequilibradas, velhas, alcoólicas e lésbicas é evidente". 

O responsável da produtora do programa, a Pearson, Frederico Ferreira de Almeida, declarou ao PÚBLICO que o episódio da "fundação" "não é uma crítica à CIDM" nem à sua responsável, mas a "representação de determinado tipo de associações que defendem os direitos das mulheres". "No nosso programa não há referências directas a marcas nem a pessoas concretas. Há representatividade de determinados estratos e estereótipos." 

Frederico Almeida defende que "não houve excessos no programa". "Há é um excesso de opinião sobre ele. As pessoas criticam sem saber, dizem que só vêm cinco minutos." Mulher não Entra é, nas suas palavras, apenas "uma caricatura, mal interpretada desde o início, ao machismo dos homens, à relação homens/sociedade e homens/mulheres". 

Já no final de Abril a presidente da CIDM tinha escrito ao presidente da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) e ao Procurador-Geral da República, solicitando-lhe uma providência cautelar no sentido da suspensão imediata do programa, para além da instauração de processo crime e/ou cível, por nele se instigar à discriminação sexual e racial. A procuradoria remeteu o caso para a AACS, e esta comunicou a Ana Braga da Cruz que o processo se encontrava em instrução. Nas mesmas condições está uma queixa que o Grupo de Trabalho Homossexual do PSR fez à AACS, também contra o Mulher não Entra. 
 

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