Público - 4 de Junho
A Televisão Tem Destas Coisas
O ministro até estava bem disposto; estava com jornalistas.
Respondeu com humor quando o repórter da TVI comentou a expressão que
o secretário de Estado Arons de Carvalho usou para descrever notícias
da TVI: "um nojo".
Mas José Sócrates começou a irritar-se quando lhe falaram da
acção da Quercus por causa das salinas do Samouco. Começou a falar
"à ministro", isto é, a dizer que o futuro terá amanhãs
que cantam e um orçamento risonho para a Fundação das salinas. O
repórter da TVI perguntou-lhe qual era esse orçamento. O ministro não
esclareceu. O repórter insistiu. O ministro irritou-se, apontou-lhe o
dedo, abriu os braços em posição de ataque e chegou-se à frente - a
bem dizer, ameaçou-o de porrada.
Não vimos o momento mais dramático da narrativa, porque a câmara
foi desligada. Mas o episódio continuou quando o ministro, qual
concorrente de "reality-show" em confessionário, disse,
falando de novo para a câmara: "fui malcriado".
Eis o que acontece às big estrelas e aos big ministros que se estão
sempre à frente das câmaras: falam demais e depois o assunto tem de
ser tratado no confessionário!
A televisão tem destas coisas. A sua linguagem própria é, em
certos aspectos, comparável à linguagem literária. No caso, a
reportagem com o ministro do Ambiente (TVI, 30.05), pode ser lida como
uma avalanche de figuras de retórica: uma alegoria (personificação da
relação governo-TVI e governo-imprensa), uma sinédoque de menor
alcance (a parte representa o todo), uma metáfora (por comparação,
concretiza a relação da política com a televisão) e uma metonímia
(ministro e repórter simbolizam governo e TVI).
O episódio veio incrustar-se na tempestade político-mediática
desencadeada pelas primeiras emissões do Bar da TV na SIC.
O Bar da TV pretendia ser uma novela da vida real, mas, afinal de
contas, foi a própria SIC que se apropriou dessa função. A televisão
tem destas coisas. Durante uma semana, não se falou do Bar, falou-se da
SIC e dos dramas edibertianos e ainda das suas consequências
regulatórias e alta-autoritárias.
O governo, a braços com a crise económica, a crise política, a
crise de vontade, a crise dos casos suspeitos, a crise dos relatórios
internacionais, o governo (uf!) transformou o episódio da SIC em
diversão momentânea. Por uma vez, a crise não era sua, era da SIC.
A TVI começou por tratar do assunto com olímpico desprezo. O caso
não fora provocado por ela. Não participou nos debates organizados
para o efeito na SIC e na RTP1 e a resposta editorial de José Eduardo
Moniz apontava o dedo à própria SIC e ao governo - ligando questões
de programação a questões políticas.
Dois dias depois, o Presidente da TVI, Paes do Amaral, revelava o
lado empresarial da questão: o governo, através da PT/TV Cabo, estaria
a favorecer a SIC na atribuição de canais; e a TVI punha como
condição para um debate sobre auto-regulação a mudança de política
da empresa de telecomunicações controlada pelo governo - questões de
programação dependentes de questões empresariais.
Para Paes do Amaral e Moniz, o governo está feito com a SIC. O que
se vira no debate organizado para o programa de Maria Elisa mostrava de
facto alguma aproximação, em parte simulada pela própria ausência de
Pais do Amaral.
Estava lá o ministro da tutela, Oliveira Martins, e o Presidente da
SIC, Pinto Balsemão. O ministro olhou ameaçadoramente para o
Presidente da RTP, João Carlos Silva, quando este lançou uma diatribe
mais forte contra a SIC que levou Balsemão a ameaçar deixar o debate.
Esse olhar simbolizava a necessidade da boa relação do governo com a
SIC.
Na relação de forças do audiovisual, a SIC é neste momento um
aliado do governo por extensão da ampla gama de negócios com a PT e a
TV Cabo: um dia depois da acusação de Pais do Amaral, a SIC anunciava
a criação com a TV Cabo Portugal de dois novos canais e de uma "joint
venture" para a TV interactiva.
A macieza política dos noticiários e a transformação do estúdio
da SIC Notícias na cadeira do poder, o que há pouco tempo poria a RTP
debaixo de fogo, não podem deixar de relacionar-se com a estratégia
empresarial da SIC.
O mundo e a vida estão cheios de coincidências, mas o tempo
ensina-nos a não sermos assim tão ingénuos.
Por seu lado, o governo tratou o caso Bar da TV acautelando o
relacionamento com a SIC. A carta de Oliveira Martins e Arons de
Carvalho desencadeada pelo caso edibertiano era muito mais branda do que
o vocabulário usado depois por Arons sobre a informação da TVI
("um nojo"). Balsemão deseja o mesmo apaziguamento:
compreendeu que o Bar da TV punha em perigo a credibilidade da SIC e a
sua relação privilegiada com a PT comandada pelo governo. A presença
de Balsemão nos debates quase simultâneos de Margarida Marante e Maria
Elisa indicava que ele reassumia o controle da situação e recolocava-a
a nível empresarial. A sua presença tinha esse significado simbólico.
Estes episódios revelam como o agenciamento das empresas de TV,
privadas ou públicas, tem implicações fortes e directas na
orientação dos seus conteúdos. A ligação da SIC à PT implicou
cedências importantes da sua linha editorial e de tempo de antena ao
governo. Os noticiários da SIC e da SIC Notícias estão actualmente
favoráveis ao governo como nunca no passado. E a TVI, que não tem
beneficiado empresarialmente do governo e da sua PT nos últimos tempos,
optou por uma linha editorial que é manifestamente de pressão e de
oposição que deixa o governo à beira de um ataque de nervos, como o
ministro Sócrates nos mostrou.
Gostaríamos todos de acreditar que não há relação entre as
linhas editoriais e práticas jornalísticas e as movimentações
empresariais, políticas e governamentais. Mas a televisão tem destas
coisas.
Entretanto, o posfácio desta tempestade foi a recusa de Miguel Lobo
Antunes para dirigir a RTP. Eu achava estranho que ele aceitasse. Ao fim
de poucos meses seria engolido pelo sistema. Mostrou ser um homem de bom
senso e bom gosto. O serviço público de TV, já o propus há dois
anos, deveria ser refundado num novo conceito e numa nova empresa,
estrutura ligeira que encomendasse fora todos os seus programas. Tenho a
certeza de que Lobo Antunes aceitaria dirigir essa nova estrutura e
faria um bom trabalho. Assim é impossível. A RTP anda há mais de um
ano à procura de um nome credível para director-geral. Não é normal
que uma empresa viva assim, mas a televisão tem destas coisas.