Público - 3 de Junho

Muitos Gémeos e Muito Iguais 
Por ANA BAPTISTA

Reunião em Lisboa

No 1º Encontro Nacional de Gémeos, famílias queixam-se da falta de apoio e louvam iniciativa


Gémeos, trigémeos e quadrigémeos de todo o país estiveram ontem reunidos em Lisboa, a comemorar o Dia Mundial da Criança e o Dia Mundial do Leite, naquele que foi o 1º Encontro Nacional de Gémeos. 

Para as centenas de crianças e adolescentes, o dia começou no "Funcenter" de um centro comercial e, entre o carrossel e o comboio da selva, e sob o olhar atento dos pais, as crianças perdiam a vergonha de brincar com outros gémeos. 

A caminho de tirar a fotografia de grupo, a mãe da Sofia e da Sara confessou que este encontro é uma oportunidade para que as suas filhas de cinco anos vejam outros gémeos e para as mães contactarem entre si e trocarem experiências. Deveria actuar também como um pretexto para alertar o Governo para o facto de que "onze contos de abono não dá para o leite do mês de uma filha, quanto mais de duas". 

O João, o Carlos e o Luís são trigémeos e, apesar de parecerem iguais a quem está de fora, a mãe garante que consegue distingui-los até de noite, pelo choro. Na família de ambos os pais existe um passado de irmãos gémeos, mas a mãe destes bebés de dois anos diz que, quando soube que eram três, "ia caindo da marquesa". 

A sua vida mudou completamente desde o nascimento dos filhos. Afirma que, neste momento, está a ganhar um terço do que ganhava antes de ficar grávida. "Não fui despromovida, porque isso é proibido por lei, mas retiraram-me de um cargo onde ganhava comissões e onde fazia aquilo de que gostava. Agora não gosto e ganho muito menos - fui castigada a nível profissional." 

Quando a assistente social da Maternidade Alfredo da Costa lhe ofereceu apoio psicológico e uma pessoa para a ajudar em casa, recusou. Hoje arrepende-se, pois acha que, do ponto de vista social, a sua vida "terminou". "Sou mãe a tempo inteiro, vivo para cuidar dos meus filhos. O meu casamento acabou, já não há lugar para o diálogo, para jantar fora e, a certa altura, as coisas arrefecem", acrescentou. 

Até em termos de apoio, esta mãe de trigémeos se sente abandonada: "As pessoas aproximam-se de nós por curiosidade, mas afastam-se por causa do trabalho que dá tomar conta deles". Em relação ao encontro, deixa a sua opinião: este encontro esteve mais vocacionado para aqueles que vêm ver os gémeos, do que para as mães. Não há ninguém que cuide deles enquanto as mães trocam experiências entre si, por exemplo. 

Uma questão de solidariedade
A mãe do Tomás e do Bernardo confessa que não necessita de ajuda financeira, mas que esta reunião foi importante, nem que seja pelo facto de ter tomado contacto com uma das actividades da Associação Grupo Gémeos, da Maternidade Alfredo da Costa. Trata-se de uma iniciativa, "De Nós para Vós", que consiste não só em promover o contacto entre as famílias com gémeos, mas também permitir que algumas delas troquem, doem ou emprestem equipamentos a crianças gémeas que mais precisem. 

A Ílya e a Izuray são irmãs gémeas e têm 22 anos. Nasceram em Luanda e estão há um ano em Portugal. Dizem que ser gémea tem muitas vantagens, não só pela ligação que se estabelece com a irmã, como também pela solidariedade que se criou em volta da sua mãe, solteira, ainda em Angola. 

Hoje são muito amigas e trabalham juntas na mesma empresa. Não se imaginando separadas, contam sempre uma com a outra. A Ílya chegou mesmo a confessar que tem um sexto sentido muito apurado e, através dele, consegue muitas vezes sentir o que está a acontecer, "já para não falar na telepatia". 

Mas o dia de ontem só terminou depois de uma passagem de modelos ao início da tarde, em que mais de uma centena de gémeos desfilaram pela mão - ou ao colo - dos gémeos Guedes e das gémeas Stillwell. Este foi o momento alto do dia para os vários grupos de irmãos, que desfilaram e dançaram ao som de música animada e num ambiente de muita cor. No final, foi entregue um cheque à Associação Grupo Gémeos, fruto de uma campanha realizada nos últimos quinze dias. 
 

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