Público - 24 de Junho

Leis da droga
A Minha Maior Dúvida É Sobre a Mensagem Que as Novas Leis Enviam Aos Jovens 

D. José Policarpo tem mais dúvidas do que certezas sobre as novas leis de combate à toxicodependência. Sobretudo porque não se estabelecem limites éticos


A Igreja tem uma doutrina em relação à toxicodependência de forma a poder condenar taxativamente o recurso às salas de injecção assistida? 

Voltamos ao estilo literário. Nem sequer há uma condenação explícita... Ninguém tem uma resposta global para a toxicodependência - quem a tiver, tem a obrigação de levantar o dedo e de a apresentar. Nós também não temos. A toxicodependência é um cruzamento de diversas causas sociológicas, económicas, culturais, espirituais. É um sintoma grave que deixa a sociedade perplexa. 

Em relação às chamadas sala de chuto, tive ocasião de dizer a minha posição pessoal ao senhor secretário de Estado, que teve a simpatia de me consultar. A minha posição nem é extraordinariamente agressiva, mas parece-me uma solução problemática. Parece-me uma solução mal compaginável com a legislação recente, já que ao mesmo tempo que se penaliza o comércio de estupefacientes, o Estado permite que num sítio sejam fornecidos oficialmente estupefacientes. 

O problema é este: prevenção de riscos, completamente de acordo em tudo aquilo que sejam diminuições de riscos, quer para o toxicodependente, quer dos riscos sociais. Mas quais são os limites éticos? Esse é um grande problema. A única coisa que é claramente condenável é o tráfico. O resto são interrogações. Eu comecei por ter interrogações, digo-lhe com franqueza, sobre a distribuição gratuita de seringas... 

Como é que vê isso hoje? 

Não vejo, tenho interrogações. Percebo porque é que se faz, certamente é inevitável fazer-se, mas será que podemos ir até um ponto em que criamos à volta da toxicodependência uma espécie de normalidade?... A minha grande dúvida acerca da nova lei é até que ponto é que ela, para nossos jovens, não vai significar "afinal a droga não é tão má como isso", "até já se pode fazer". 

O seu principal receio é a mensagem que estas medidas enviam para a comunidade... 

Claro, é isso, é. Impressionou-me muito que pessoas que trabalham neste sector, com dados científicos, tenham calculado que, depois da lei, o consumo de droga iria subir x por cento. Depois, poderia regredir... 

Mas isto são coisas acerca das quais temos profundas interrogações. Diante de um toxicodependente, não tenho coragem de o tratar de outra maneira que não seja um doente ou uma pessoa com problemas que precisa de ser ajudada. 
 

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