|
Público - 24 de Junho
Casamento, sexualidade
A Palavra "Família" Tem Um Significado Antropológico Que Já Está Ocupado
Com bom senso e humanidade poder-se-iam resolver o problema dos direitos dos homossexuais sem falar de novos conceitos de família. Até porque, para o Cardeal Patriarca, há palavras e conceitos que "já estão ocupados".
A Igreja tem a sua doutrina sobre o casamento e sobre a sexualidade. Mas numa situação em que havia uma relação afectiva entre duas pessoas do mesmo sexo e uma delas adoecia e precisava de ser hospitalizada, o companheiro não o podia visitar porque a lei não permitia. Como é que resolvia este dilema?
Nós nem entrámos muito nesse debate, porque é uma questão muito delicada, para a qual a opinião pública tem uma sensibilidade particular. A doutrina da Igreja acerca da homossexualidade é uma doutrina diáfana, porque é muito comum ao que a Igreja diz às pessoas heterossexuais na vivência da sua sexualidade: é a doutrina do respeito, da castidade. Mas esse hoje é um discurso complicado.
A nossa posição é que, para atender problemas como esse das pessoas homossexuais - que criam relações estáveis, afectivas, de comunhão de vida -, se crie um estatuto que não se confunda com o da família.
Porquê?
Porque a família tem um fundamento antropológico. É um homem e uma mulher, em ordem à procriação, numa relação estável e, segundo a nossa óptica, para toda a vida. É uma alteração antropológica dos conceitos culturais básicos da família. Há palavras que estão ocupadas.
Não se chama casamento, chama-se união de facto.
Mas criou-se confusão ao falar em novo tipo de família...
Não há novos tipos de família?
Há novos tipos de família, na medida em que a família clássica evoluiu. Mas a heterossexualidade faz parte do conceito antropológico de família: poder conceber em conjunto, poder construir uma vida de complementaridade de homem-mulher na sociedade. Há toda uma antropologia de família que ainda é a da maior parte da humanidade. E esse conceito está ocupado.
Como vê a realidade das famílias monoparentais?
Há famílias monoparentais inevitáveis - quando se fica viúvo -, mas isso é diferente de mulher solteira que resolve ter um filho sem se comprometer. Essa é uma família incompleta, mas que precisa de ser ajudada. Se me pergunta se a Igreja aprova que uma mulher solteira, para ter um filho, o tenha como quer, quer fazendo-se inseminar, quer tendo uma relação esporádica, essa não é a nossa doutrina. Mas respeitamos e, se tivermos uma pessoa dessas para ajudar humanamente e espiritualmente, ajudamos com certeza.
Numa relação homossexual, o que deveria ser feito em casos como o que era posto há pouco, se o companheiro é proibido de entrar num hospital?
Isso resolve-se com bom senso e humanidade. Um Estado laico, que não está prisioneiro de nenhuma orientação religiosa - já não digo o mesmo de uma orientação ética, porque a laicidade não implica o abandono da ética -, pode regulamentar essas situações. Mas se as regulamentar mal, ou contra aquilo que a Igreja pensa, a Igreja diz. O dizer não significa necessariamente condenar ou deitar governos abaixo. Estamos numa sociedade plural. A Igreja diz - preparem-se para isso: a gente diz sempre. O Estado tem o direito de regulamentar uma coisa desse género, é uma questão de bom senso. Mas não creio que seja preciso chamar-lhes famílias de novo tipo...
[anterior] |