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Público - 23 de Junho
Área Metropolitana de Lisboa: a Década da Periferia
Por FRANCISCO NEVES
A cidade de Lisboa terá perdido entre 20 a dez por cento da sua população residente nos últimos dez anos enquanto quase todos os concelhos em seu redor viram crescer o número de moradores. Esta é a ideia-base dos resultados preliminares do Censos 2001 para a Área Metropolitana de Lisboa, onde se sublinha que tanto a capital como o Porto "estão cada vez mais 'cercadas' face ao acumular de população à sua volta e à perda de população que se verifica nos respectivos concelhos". É a década da periferia - ou de uma nova ideia de Lisboa.
O aparente empobrecimento humano do núcleo central da Área Metropolitana - movimento só acompanhado pelos concelhos da Amadora e Barreiro - é compensado por acentuados crescimentos da população residente nos municípios de Sintra, Mafra, Sesimbra, Seixal, Alcochete e Palmela. Todos eles apresentam uma taxa de variação da população residente (entre 1991 e 2001) superior a 20 por cento. Seguem-se-lhes Vila Franca de Xira e Cascais, com um crescimento populacional superior aos dez por cento. O concelho de Sintra é, ao nível do país, o segundo concelho com maior taxa de crescimento: 39,3 por cento.
Cresceram ainda (entre os dois e os dez por cento) as populações de Oeiras, Odivelas, Loures e Azambuja, na Margem Norte, e de Almada, Montijo, Moita e Setúbal, na Margem Sul. A cidade de Lisboa perdeu, desde 1991 mais de cem mil residentes - de 663.394 passou para 554.050, em 1997.
Não há ruptura, mas falta rejuvenescimento
Mas nenhum destes números traduz qualquer ruptura dramática. Sobretudo porque já não se pode pensar Lisboa isolada da coroa de território que a rodeia, esse concelhos onde os números mostram uma mobilidade grande de habitantes. É para isso que o especialista em planeamento urbano Jorge Gaspar chama a atenção - "Não se pode falar num 'cerco' à cidade", comenta. Segundo este professor catedrático, a perda de população de Lisboa "não é totalmente negativa" pois há que ter sobretudo em conta a população presente em Lisboa - os turistas, os residentes fora da cidade mas que aqui desenvolvem actividade ou têm segunda habitação. No concelho de Lisboa, nota, assiste-se como noutras capitais europeias, a uma sobrevalorização do património imobiliário que afastará muitos para outros municípios, nomeadamente os mais jovens. Mas, por outro lado, quem hoje reside em Lisboa reside em melhores condições que há dez anos: "Há muita construção nova habitada e também muita habitação comprada e não ocupada, ou só temporariamente ocupada porque o património habitacional se tornou objecto de investimento; qualquer capital económica e política de um país tem esta marca". Outra hipótese justificativa será a de determinar o peso da emigração de lisboetas para o estrangeiro. "Não há uma desertificação de Lisboa, mas há o problema de lhe faltar uma população mais jovem. O que me parece importante é rejuvenescer a população da cidade de modo a reocupar o bairros antigos e, nesse sentido a proposta do actual presidente da câmara de fixar jovens na Baixa é promissora", afirmou.
Jorge Gaspar tem algumas dúvidas quanto à fiabilidade da conclusão ontem apresentada segundo a qual também a Amadora, por exemplo, regista uma grande quebra populacional. "Muitos residentes não terão querido ser entrevistados. Estou a pensar nos muitos imigrantes que, plausivelmente, não terão sido recenseados e admito que o mesmo tenha ocorrido em Loures ou Odivelas", comentou. "Quanto ao Barreiro, os resultados encontrados resultam do envelhecimento populacional e de um movimento de camadas mais novas para Sul - para o Seixal e Palmela - expressão de uma mobilidade intensa que ocorre na Península de Setúbal. A quebra de população residente neste concelho teria sido ainda maior se não fosse a circunstância de alguma população da Margem Norte se ter mudado para lá", acrescentou.
"A grande questão para o futuro da Área Metropolitana de Lisboa - concluiu - reside numa política de transportes que aposte no transporte colectivo em via própria (comboio, eléctrico, metropolitano) em alternativa à hipervalorização do automóvel".
1991-2001
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Os concelhos que mais cresceram |
| Albufeira |
48% |
| Sintra |
39% |
| Sesimbra |
35% |
| S.Brás Alportel |
33% |
| Maia |
29% |
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E os que mais diminuíram |
| S.Vicente |
21% |
| Boticas |
19% |
| Penamacor |
19% |
| V.V.Ródão |
18% |
| Gavião |
18% |
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