Público - 21 de Junho
Reforma Nunca Será Inferior a 80% do Salário
Por JOÃO RAMOS DE ALMEIDA
Promessa de Paulo Pedroso
Oposição convencida de que o Governo não cumprirá prazos
A futura pensão de reforma nunca será inferior a 80 por cento do
salário médio que se considerar, afirmou ontem aos deputados o
ministro do Trabalho e da Solidariedade, Paulo Pedroso. Esta baliza
contraria uma ideia veiculada de que o Governo se estaria a inclinar
para que os rendimentos mais elevados pudessem ter uma taxa de
substituição do salário a rondar os 70 por cento, na linha, aliás,
de reformas recentes nalguns países europeus.
A informação foi prestada aos deputados da comissão de Trabalho,
Solidariedade e Segurança Social convocada pelo PCP para ouvir o
Governo sobre os trabalhos de regulamentação da Lei de Bases da
Segurança Social, cujo prazo legal termina em Agosto próximo. Apesar
de aprovada e publicada em Agosto de 2000, a Lei de Bases representa um
conjunto de regras e princípios, o que torna a regulamentação uma
fase decisiva para se saber se os futuros reformados poderão ser ou
não prejudicados face às expectativas geradas e de que forma o sistema
será sustentável.
Foi nesse sentido, aliás, que o PCP procurou indagar o ministro e o
secretário de Estado da Segurança Social, o que parece indiciar a
preocupação do partido que, com o PS, viabilizou a Lei de Bases sobre
o ritmo de regulamentação. E a oposição parece convicta de que o
Governo não cumprirá os prazos.
De acordo com a resolução 150/2000 ficaram por tratar diversas
questões. É o caso da institucionalização do conselho nacional de
solidariedade (órgão consultivo do sistema onde têm assento entidades
intervenientes no sistema), a diferenciação positiva das taxas de
substituição das pensões em relação aos salários, a
diversificação da base de incidência das taxas contributivas,
alteração da fórmula de cálculo da pensão e consignação das
receitas fiscais para a segurança social.
Na intervenção inicial de abertura da interpelação, Lino de
Carvalho do PCP bateu estas questões. Como vai ser o processo de
transição entre o regime vigente e o novo? Que ritmo de progressão
até se atingir o período de 40 anos (carreira contributiva completa)
para o período de formação da pensão?
Quem vai ser abrangido? De que forma se vão revalorizar os salários
passados no cálculo da pensão? Que fontes alternativas de
financiamento do sistema se vão considerar? Porque se vai entregar a
entidades privadas 20 por cento dos fundos do Instituto de Gestão dos
Fundos de Capitalização do sistema (120 milhões de contos) quando o
Instituto até teve taxas mais rentáveis do que os fundos de
investimento?
Apesar de passados quase quatro dos seis meses de período para
regulamentação, as respostas do ministro não foram, para a
oposição, satisfatórias. Quanto ao conselho, Paulo Pedroso disse que
dentro de semanas haveria decisões. Mas o PCP mostrou-se veementemente
contra a multiplicação de entidades que possam reduzir o peso dos
principais financiadores e beneficiários do sistema.
Quanto à forma de transição do regime de pensão para o novo, o
ministro afirmou que preferia que essa matéria fosse objecto de acordo
no Conselho Permanente da Concertação Social e que, apenas em caso de
ausência de acordo, é que tomaria uma decisão, o que implicará um
deslizamento no tempo quanto à efectiva regulamentação. Foi, aliás,
com base nessa entrega do processo à concertação que Paulo Pedroso
afirmou ser "prematuro apresentar cenários fechados" sobre as
questões concretas levantadas pelo PCP. Mas que haveria balizas.
Uma delas seria a de que as taxas de substituição das pensões
nunca seriam inferiores a 80 por cento do salário, podendo mesmo ser
superiores, embora ainda a definir. E que se poderia caminhar para uma
transição de um período de formação da pensão dos actuais dez
melhores anos dos últimos 15 anos para a carreira contributiva completa
de 40 anos de uma forma rápida. Ou seja, considerando mais do que um
ano de carreira contributiva exigida por cada ano que passasse. Mas que
está tudo em aberto.
Quanto à entrega de 120 milhões de contos a entidades privadas,
tratou-se, segundo o Governo, de uma "experiência" de
flexibilização de gestão, aliás exigida pelo próprio Instituto.
J.R.A.