Público - 20 de Junho
"Quem Tem Tramado a Prevenção Primária?"
Por VITALINO CANAS
1. Há uma película a perseguir-nos em sessões contínuas há
longos anos. O seu título é "Quem tem tramado a prevenção
primária?" Até tem um bom enredo, baseado num absurdo, daqueles
que só a realidade consegue fornecer. Mas é de autor incógnito.
Ninguém se atreve a assumir a autoria de um filme que tem crime, mas
não tem criminoso. A verdade é que todos os personagens protestam amar
profundamente a dita prevenção primária.
2. Na aparência ninguém quer tramar a prevenção primária. São
raríssimos aqueles que sustentam que a prevenção primária não serve
para nada. E mesmo esses, à cautela, sempre vão apoiando algumas
acções nesse domínio.
Ressalvadas essas posições mais cépticas, a prevenção primária
é à primeira vista uma das poucas coisas que suscitam consensos na
sociedade portuguesa: olha-se à direita, e aí estão os defensores da
prevenção primária; olha-se à esquerda e lá nos acenam os
apologistas da prevenção primária: políticos de todos os quadrantes
e ideologias, cidadãos cristãos-democratas, liberais, socialistas,
comunistas, esquerdistas, católicos, protestantes, muçulmanos,
dignitários das igrejas, pais, sindicalistas, empresários, autarcas,
todos, em uníssono, suspiramos pela prevenção primária. Discute-se
uma política nacional de tratamento e alguém lembra: o que nos faz
falta é prevenção primária! Lança-se uma política de redução de
riscos e de minimização dos danos derivados do consumo de drogas e
logo se enfatiza: o essencial é a prevenção primária! Acentua-se a
pressão sobre o tráfico e alguém de imediato nota: isso não resolve
nada, o que é decisivo é a prevenção primária!
3. Mas o que é certo é que alguém ou alguma coisa tem tramado a
prevenção primária do consumo de drogas. Porque, admitamo-lo, em
Portugal, como na maior parte dos nossos parceiros europeus, a
prevenção primária não é ainda prioritária na luta contra a droga
e a toxicodependência. E é legítima a suspeita de que parte do que
fazemos não atinge os efeitos pretendidos.
4. Sendo assim, é oportuna a interrogação: o que é que tem
tramado, afinal, a prevenção primária? Haverá aqui um fenómeno de
masoquismo colectivo, protagonizado por uma sociedade que sabe o que
deve fazer, mas se recusa conscientemente a fazer o que deve?
5. O enredo é mais complexo do que isso. Talvez o facto de o
consenso ser mais aparente do que real seja capaz de explicar melhor as
dificuldades da prevenção primária.
No fundo, temos de admitir que é difícil conseguir uma definição
consensual de prevenção primária e das respectivas metodologias.
Algumas pessoas tendem a considerar que a prevenção primária se
esgota numas campanhas de cartazes ou em órgãos de comunicação
social, divulgando frases do género "Diz não à droga",
"A droga mata!" ou "Droga, loucura, morte!". Outros
acharão que o que é necessário é "falar sobre drogas",
difundir informação sobre os seus malefícios, promover formação de
pais, professores, animadores sociais, jovens, etc., sobre as
substâncias e o modo de lidar com elas. Outros ainda sustentarão que
se devem promover campanhas sistemáticas mostrando "drogados"
em absoluta degradação para instilar o medo das drogas.
Haverá também quem rejeite tudo isso e proponha antes investimento
em massa na melhoria das condições de vida das pessoas, de modo a
evitar situações de exclusão, aquelas que mais potenciariam o
fenómeno dos consumos. Não é raro encontrar quem aposte sobretudo na
ocupação de tempos livres, "para evitar que os jovens se metam na
droga". Muitas dessas posições serão, porventura, parcialmente
verdadeiras. Mas, como os trabalhos dos especialistas mostram, correm o
risco do superficialismo e, em alguns casos, não resistem ao teste da
eficácia.
A dificuldade de consenso não se verifica apenas na definição de
prevenção primária ou nas metodologias de abordagem e de trabalho.
Podem discutir-se - e são discutidos - os agentes adequados, os
grupos-alvo, os ambientes onde se deve promover a prevenção primária,
as capacidades necessárias, os objectivos a serem atingidos.
6. O Governo entendeu que é oportuno lançar um debate nacional
sobre a política de prevenção primária, que decorrerá até 10 de
Agosto. O pretexto desse debate é um anteprojecto de proposta de lei de
bases da prevenção primária, que será posteriormente submetido à
Assembleia da República. O objectivo desse debate não é desembrulhar
o enredo, porque os enredos não se desvendam com debates. Os objectivos
são melhorar aquilo que sabemos, enquanto comunidade, sobre prevenção
primária e, se possível, lançar as bases para um verdadeiro sistema
nacional de prevenção primária do consumo de drogas.
7. Isto é, pretende-se discutir alguns temas que são habitualmente
negligenciados. Umas vezes porque não se coadunam com um discurso
político frequentemente empurrado para o simplismo das mensagens curtas
e mediáticas.
Outras vezes porque escapam à capacidade de conhecimento do comum
dos cidadãos, mesmo daqueles mais interessados ou mais preocupados com
o fenómeno do consumo de drogas.
8. Além disso, procura-se criar as bases institucionais, jurídicas
e comunitárias para uma política de prevenção primária mais
sistemática, mais sustentada, mais profissional e mais eficaz.
Para isso, propomos alguns mandamentos. Cremos que a prevenção
primária deve ser:
- Planeada e executada sistematicamente e não de modo pontual e
casuístico;
- Preparada por quem está mais perto dos cidadãos (autarquias,
organizações comunitárias);
- Feita por pessoas com preparação adequada;
- Dirigida a grupos especificamente delimitados;
- Financiada em boa parte pelo Estado e pelos restantes poderes
públicos, mas executada numa percentagem apreciável por organizações
da sociedade civil;
- Financiada de modo transparente, com recurso a meios de
contratação acessíveis a todos;
- Objecto de acções com duração e sustentabilidade garantida;
- Coordenada e articulada, evitando duplicações e desperdícios de
recursos;
- Avaliada (e corrigida de acordo com a avaliação);
- Tarefa de toda a comunidade.
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros