Público - 2 de Junho

A Caravana Passa, Mas... 
Por FRANCISCO SARSFIELD CABRAL

"Os cães ladram e a caravana passa", terá dito Emídio Rangel, comentando a polémica levantada pelo Bar da TV. No entanto, já se notam alguns solavancos, como o da saída de Ediberto Lima da produção daquele "reality show". E os cães continuam a ladrar, com uma força que muitos não esperavam. Assim, talvez não seja fatal uma resposta negativa à pergunta aqui lançada por José Queirós: "Não podemos fazer nada?" (PÚBLICO, 24-05-01). Através da Internet há quem esteja a tomar iniciativas que poderão vir a ter algumas consequências na desejável travagem da degradação televisiva. 

Dos poderes públicos não será sensato esperar grande coisa. A lei da televisão tem sido repetida e alegremente violada em Portugal, desde logo na transmissão de promoções pornográficas em horário infantil. Aliás, basta ver como os responsáveis da SIC e da TVI se acusam mutuamente das piores atrocidades nas respectivas programações - um ponto em que ambos têm razão. Isto perante a passividade do Estado e a falta de autoridade da chamada Alta-Autoridade, que acordou tarde para os desmandos em curso. De resto, não acontece só com a TV: cumprir a lei passou de moda em Portugal. Tal permite que os responsáveis televisivos apontem cinicamente o recurso aos tribunais a quem se sinta ofendido na sua dignidade pelo telelixo - sabendo, claro, que a lentidão do nosso sistema judicial impede, na prática, o funcionamento desta garantia essencial em qualquer Estado de direito. As televisões comerciais actuam em Portugal como se estivessem acima da lei e fazem gala disso; têm consciência do seu poder e os políticos agacham-se, porque estão dependentes dos favores televisivos para a sua imagem. Pois se alguns ministros até são ali comentadores residentes... 

Só um "atrasado mental" poderá esperar das estações comerciais de televisão passos no sentido de colocar limites éticos à programação. A SIC começou por rejeitar o Big Brother, que considerou indigno. Mas o programa, transmitido na TVI, roubou-lhe audiências (e as acções da Impresa caíram). Assim, o seu presidente, Francisco Balsemão, disse-nos que, afinal, a SIC se tinha "enganado". A estação apressou-se a emitir "reality shows" ainda mais degradantes. Ou seja, a dignidade de um programa depende das audiências. Neste quadro, a conversa da auto-regulação é para entreter tolos: a falta de escrúpulos já demonstrada pela TVI e pela SIC apenas leva a esperar que desçam ainda mais alguns degraus na abjecção para captar audiências. 

A menos que comecem a surgir problemas do lado dessas mesmas audiências. Não que o clamor que agora se levantou, e que é genuíno, leve de imediato a que muitos telespectadores deixem de gostar dos "reality shows" (conceito onde hoje cabe boa parte dos "noticiários" televisivos, sobretudo os da TVI; e a SIC mostra não querer ficar atrás, transmitindo no Jornal da Noite uma espantosa "reportagem" sobre uma casa algarvia onde se promove o sexo em grupo). Mas acabou o estado de total impunidade em que as televisões, anunciantes e colaboradores têm vivido. A partir de agora, as pessoas vão reparar mais em quem emite o telelixo, quem o financia comercialmente, e quem, pela sua presença no pequeno ecrã, dá alguma credibilidade às estações violadoras da dignidade das pessoas (naturalmente, ao preço de perder a própria credibilidade). 

Alguns anunciantes já hesitam em patrocinar certos programas de larga audiência, temendo prejudicar a imagem da empresa e da marca junto dos clientes. É um bom princípio, que importa desenvolver através de uma crescente atenção aos patrocinadores de telelixo. Quanto aos políticos, decerto que o caso Berlusconi faz pensar - o novo primeiro-ministro italiano deve parte da fortuna e do sucesso político ao telelixo que as suas cadeias de TV emitem. Mas o fenómeno talvez se não repita entre nós. Mesmo sem ser tão optimista como Luís Salgado Matos (que atribui à lamentável cobertura televisiva da tragédia de Castelo de Paiva o acordar do público para os horrores do telelixo), julgo que este sobressalto ético revela, apesar de tudo, um certo bom senso de muita gente que mostrou não estar a dormir. A hipótese de vir a ser penalizado pela associação ao telelixo passará, assim, a pesar nas estratégias políticas e comerciais. É um passo, porventura ainda modesto, mas no sentido certo. 

De facto, é principalmente do lado da procura que quem não gosta de telelixo deve actuar. No fundo, o que está em causa é levar os que consomem este tipo de programas a preferirem coisas menos deprimentes. Mas essa é uma tarefa demorada, pois implica a superação do subdesenvolvimento mental e emocional de muita gente, cuja capacidade crítica é preciso despertar. É verdade que a responsabilidade última dos maus programas é dos cidadãos que os vêem e lhes dão grandes audiências; e que a TQT (a Televisão Que Temos, na designação de Alfredo Barroso) é o espelho da nossa sociedade; mas tal não pode servir de justificação a um sistemático esforço, imposto pela guerra das audiências, para tornar a nossa sociedade ainda pior. 

O grande mistério é a RTP. Pelo menos desde que o Big Brother começou, em Setembro passado, abriu-se à estação dita de serviço público uma oportunidade de ouro, a de marcar a diferença. Mas a oportunidade não foi aproveitada. Pelo contrário, embora sem cair nos extremos das suas concorrentes comerciais, a RTP tem vindo a baixar os seus padrões de qualidade. Por exemplo, já vi o Telejornal promover programas da estação como se de informação se tratasse. Parece que a RTP quer imitar, em registo "soft", o pior que as outras fazem, não percebendo que teria de fazer diferente. Será que, também deste fracasso, o Governo lava as mãos? 

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