Lusa - 10 de Junho

DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS EM "QUARENTENA"

Joaquim Costa

Tem havido alguma confusão, incluindo na imprensa, sobre aquilo que nos faz agir. 

Antes de mais, partimos do seguinte pressuposto: a SIC e a TVI ultrapassaram os limites do que, na nossa opinião (repetimos: na nossa opinião), pode ser mostrado num canal de televisão. Nada nos move contra estas estações, mas temos o direito de tentar pressionar, com os meios ao nosso alcance, os responsáveis pelas opções editoriais e de programação, que reputamos de lamentáveis, dessas estações.
Quem não partir desta ideia e tiver uma opinião diferente, siga o seu caminho. Não impomos nada a ninguém, nem pedimos a qualquer autoridade que proíba o que quer que seja. 

Têm-se criado alguns "mitos" à volta de uma iniciativa da chamada "sociedade civil", completamente apartidária, não confessional e sem qualquer filiação. Vejamos:

1º - Mito - "Censura" - Este seria um movimento que implica a censura: ora, este é o movimento menos censório que pode existir! Apela-se apenas à consciência de cada um (seja dos cidadãos comuns, seja das figuras públicas), para que decida o que entender. Punhamos os pontos nos ii: a censura vem de fora, é imposta "de cima", pelos poderes públicos. Nós apenas queremos que, quem concordar connosco, se junte a nós. 

2º - Mito - "Se eu já não vejo, para quê intervir num boicote deste tipo?" - salvo o devido respeito, é o mesmo que dizer: eu não me drogo, porquê preocupar-me com a droga? É uma atitude que obviamente respeitamos, mas aqui pretendemos ir mais além. Julgamos que chegou o momento de intervir num problema que é de toda a sociedade portuguesa.

3º - Mito - "Elitismo" - este seria um movimento de "pseudo-intelectuais" que queriam proibir o "povo" de ver o que gosta. Mas quem é que está a proibir o quê? E quem é que decide pelo povo? Cremos que é o próprio povo. Pelo menos, é isso que se passa em democracia. Por isso, o que apelamos ao "povo" é que, se não gostar do que se está a passar, vença a apatia e o conformismo. Faça qualquer coisa! 

4º - Mito - "Conspiracionismo" - já ouvimos de tudo: seríamos pagos pela RTP, quereríamos calar a voz de Marcelo Rebelo de Sousa, etc. Ora, esta iniciativa partiu de um grupo de cidadãos preocupados, e, neste momento, já é de muitas pessoas e organizações. Não está ninguém "por trás" dela, nem a financiar nem a apoiar, para além das pessoas e organizações que por ela têm dado a cara. Esta página é, aliás, construída usando apenas as ferramentas gratuitas existentes na Internet e os conhecimentos informáticos de alguns amigos generosos. Reafirmamos que os únicos propósitos desta Quarentena são os expressos nesta página: os de contribuir para uma "Televisão mais sã". E julgamos também que está suficientemente claro que nada nos move contra os profissionais da SIC e da TVI, entre os quais se contam, certamente, muitos que partilham as preocupações que conduziram a esta iniciatica.

5º - Mito - "Selectividade" - uns acham que devíamos ir mais longe, abrangendo também a RTP, outros que devíamos ficar mais aquém, boicotando apenas a SIC e deixando de fora, por exemplo, a "SIC-Notícias" ou a "SIC-Radical". Claro que há muitos outros boicotes possíveis, com os mesmos propósitos. Mas este foi assim concebido, com uma natureza propositadamente "maximalista", porque entendemos que o momento já não está para boicotes meramente simbólicos. Quanto ao âmbito do boicote: pareceu-nos que, incluindo-se a "SIC-Notícias" e a "SIC-Radical" no "universo SIC", não fazia sentido boicotar a SIC sem incluir as suas "filhas". Por outro lado, não incluímos a RTP por nos parecer que a RTP - apesar da qualidade duvidosa de muito do que lá passa - não tem entrado no "frenesim" actual.

6º - Mito - "Moralismo" - nisto de moral e ética entramos num terreno muito escorregadio: cada um tem a sua! Só podemos dizer isto: perante os nossos padrões morais, parece-nos que as coisas estão a levar um caminho errado. E perigoso. Quem tiver outra opinião, não adira.

Mensagem final: para que amanhã os nossos filhos nos não acusem de lhe termos deixado uma sociedade "doente"; para que amanhã os nossos netos nos não critiquem por termos ficado no sofá, passivos e amorfos, a ver passar o "telelixo".
 

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