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Jornal de Notícias - 3 de Junho
Filhos e cadilhos
Edite Estrela (*)
1 de Junho, "Dia Mundial da Criança". Uma qualquer rádio acorda-me com vozes e risos de meninos. Saio dos braços de Morfeu, embalada pela cantilena de "Rita arredonda a saia", preparada para um longo dia.
Recordo que irei ser submetida ao "julgamento" de uma exigente assembleia paritária (a sociedade é formada por mulheres e homens, meninas e meninos, não é?) das crianças do meu concelho. Diz-me a experiência dos anos transactos que os "deputados-municipais-por-um-dia" virão com a lição bem sabida e as perguntas na ponta da língua. Perguntas de elevado grau de dificuldade, como não poderia deixar de ser. Eles sabem que estão investidos da legitimidade que a eleição pelos colegas lhes confere. Estão conscientes da responsabilidade que é falar em representação dos outros. E não têm dúvidas de que "os outros" serão pouco tolerantes na avaliação do desempenho do seu deputado. Com um simples exercício de cidadania, uns e outros aprendem o funcionamento das instituições democráticas e dão os primeiros passos na participação cívica.
"O melhor do mundo são as crianças", afirmou Pessoa. E o nosso mais importante recurso natural, acrescento. E a maior preocupação do mundo são os filhos, contrapõem os pais. "Filhos são cadilhos!", declara a sabedoria popular.
Por experiência, sabemos que crescem as crianças, multiplicam-se os problemas e aumentam as angústias dos progenitores. Pelo menos dos que não se demitem e se esforçam por desempenhar bem a função. Com muitas dúvidas e poucas certezas, porque nada é linear e a educação dos filhos, nas sociedades modernas, traduz-se num desafio de total disponibilidade, a exigir muito bom senso, carinho e firmeza, em doses equilibradas, e muitos outros requisitos. São tais as exigências que boa parte da paciência e da autoridade parental sucumbe perante a dimensão da tarefa.
Neste domínio, a situação que se vive actualmente é muito complexa. São tempos difíceis para os pais e tempos perigosos para os filhos. E com tendência para o agravamento no futuro, se não forem correctamente interpretados os sinais que nos chegam, de natureza e origem diversas. Analisar os sinais e adoptar as medidas adequadas, antes que mais jovens se percam para a droga e o crime, é um imperativo nacional.
Há dias, o JN, citando um estudo de J. Barra da Costa, "docente de Ciências Humanas numa instituição de ensino superior", dava conta do aumento de casos de furtos, roubos e assaltos em lojas, supermercados, escolas e na rua, cometidos por gangues de jovens entre os 12 e os 15 anos, actuando sobretudo na área da Grande Lisboa. O estudo aponta para mais de 8000 jovens delinquentes em todo o país, dos quais 6536 actuam em Lisboa e arredores.
O que leva tantos jovens a enveredar pela marginalidade?
As causas são várias, mas na sua maior parte estão relacionadas com pobreza, exclusão social e ambiente familiar degradado. Ainda de acordo com o citado estudo, a maior parte dos interpelados invoca "a revolta que sente dentro de si por força da sua condição de inferioridade na família e na sociedade". Só uma ínfima parte reconhece que tais comportamentos resultam de "má educação", "problemas familiares" e "instabilidade económica". Mas, para um número significativo dos inquiridos, fazer mal ao próximo pode ser "um divertimento".
Outros estudos e estatísticas indiciam, igualmente, que estamos a lidar com um "barril de pólvora", que pode explodir a qualquer momento. Os jovens abandonam a escola porque não é divertida e porque estudar é uma maçada. Não ingressam no mercado de trabalho porque têm menos de 16 anos ou porque não estão habituados a respeitar horários e normas de conduta. Ficando com todo o tempo livre, sem responsabilidades nem disciplina, entregues a si próprios, à televisão e à rua, estes filhos da sociedade de consumo e de facilidade são facilmente "agarrados" pelos grupos organizados.
O "Dia da Criança" é um bom pretexto para uma reflexão sobre o que estamos a fazer com os nossos filhos e que legado lhes vamos transmitir. Os jovens de hoje serão os pais de amanhã, os educadores e os governantes, os legisladores e os juízes.
(*) Presidente da Câmara de Sintra, escreve no JN, semanalmente, ao domingo
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