Expresso - 9 de Junho

A moral de Glória

Henrique Monteiro

«O ensino não deve ter uma moral? Ou seja, tendo em conta que a moral é uma normativa do bem e do mal, o ensino deve alhear-se destes conceitos? As regras da ética que consubstanciam a moral são desprezíveis no sistema defendido por Glória Ramalho? E catequético porquê? Apenas o ensino religioso - para que nos atira esta palavra - se ocupa da moral? Não existe uma ética que molda a nossa sociedade? Ela é indiferente? Depende da perspectiva de cada um?»

A SEMANA passada deu-se aqui conta de um inacreditável texto que o Ministério da Educação entendeu escolher para a prova nacional de aferição do 6º ano. Por entre críticas de professores e pais, algumas vozes se levantaram em defesa dessa escolha. Nomeadamente, a da responsável pelas provas de aferição, Glória Ramalho. Que, se outros méritos não tiver, tem o de ser clara.

Disse Glória Ramalho nestas páginas, defendendo a opção tomada para a prova, que a autora do texto «não cede à tentação moralizante ou catequética de pôr uma criança a actuar como um adulto, conhecedor da lei e da esquadra de polícia mais próxima». E acha que isso é positivo. Claro que Glória Ramalho, habilmente, desviou o problema para a autora do texto (Luísa Ducla Soares), quando nunca foi essa a questão. A objecção reside no excerto escolhido pelo Ministério da Educação e não no livro em si.

Mas analisemos, ainda assim, as palavras desta responsável pela educação dos nossos filhos. O texto, diz, não cede à tentação moralizante. O que quer isto dizer? Que existe uma tentação moralizante que deve ser evitada? Que o ensino não deve ter uma moral? Ou seja, tendo em conta que a moral é uma normativa do bem e do mal, o ensino deve alhear-se destes conceitos? Que as regras da ética que consubstanciam a moral são desprezíveis no sistema defendido por Glória Ramalho? E catequético porquê? Apenas o ensino religioso - para que nos atira esta palavra - se ocupa da moral? Não existe uma ética que molda a nossa sociedade? Ela é indiferente? Depende da perspectiva de cada um? Sendo que a única perspectiva que se pode impor no ensino é a de Glória Ramalho, ou seja, a perspectiva de que se deve evitar a tentação moralizante e catequética? 

Avança a mesma responsável que essa tentação moralizante seria a de pôr uma criança a actuar como um adulto, conhecedor da lei e da esquadra. Mas não faz parte da educação ensinar as crianças a cumprir as leis? Desde as mais simples - atravessar nas passadeiras de peões, não fazer barulho em locais impróprios - até a outras mais complexas - assumir as responsabilidades pelos erros, não ficar com o que não é nosso. Já não faz? É isso que é moralizante e catequético?

Glória Ramalho terá ideias originais e tem direito a tê-las, com certeza. Mas já não tem o direito de impor essas suas ideias aos nossos filhos. Ela presta um serviço que em nada fica a dever, pelo contrário, ao telelixo com que a televisão bombardeia crianças e adultos. E isso não é bonito, nem estimável, vindo do Ministério da Educação. O raciocínio de Glória, as palavras moralizante e catequético, fazem por demais lembrar argumentos de uma Teresa Guilherme ou de um Ediberto Lima. Como estas e outras «estrelas» do nosso telelixo, também Glória clamou contra os «assomos censórios». Esqueceu-se que foi ela quem, ao escolher ou apoiar aquele inacreditável texto, censurou, porque pôs de parte, muitos conceitos morais - porque se há-de ter medo desta palavra? - que os pais querem continuar a ensinar aos filhos.

E-mail: hmonteiro@mail.expresso.pt

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