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Expresso - 9 de Junho
Missão imPossível
Na sequência das polémicas lançadas pelos «reality shows» da TVI e da SIC, um movimento cívico lançou o apelo a um boicote às televisões durante o mês de Junho. Para já, os políticos e personalidades públicas não mostram grande adesão
«ESTE parece um debate anedótico em que concluímos que está tudo mal e não podemos fazer nada». Esta constatação do deputado Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda, no encerramento do debate na Assembleia da República, há algumas semanas, sobre a programação televisiva, foi «a mola» que fez saltar um movimento cívico de apelo ao boicote televisivo durante o mês de Junho.
A iniciativa, divulgada na Internet, partiu de Joaquim Pedro Costa (jurista e filho do presidente do Tribunal Constitucional, Cardoso da Costa) e da mulher. Com o objectivo de levar «os responsáveis dos canais a repensar as suas opções e estratégias de programação e empurrá-los para a autolimitação», esta acção - que arrancou a 24 de Maio com o envio de 1200 correios electrónicos, incluindo para os grupos parlamentares e para os meios de comunicação social - propõe um boicote à TVI, à SIC e aos seus canais associados, como a SIC Notícias e a SIC Radical, até ao fim do mês. Para o efeito, apela às figuras públicas e políticas, que são comentadores-residentes nos canais referidos, para que não participem nos habituais programas. Simultaneamente, apela a todos os cidadãos para que não assistam a qualquer programa em qualquer destes canais.
«Nem o telejornal...»
«Às horas a que as minhas três filhas estão a ver desenhos animados na TVI, estão constantemente a ser interrompidos para fazer ligações ao 'Big Brother' e programas afins», justifica Joaquim Costa, lamentando ainda o facto de a própria informação estar a ser permeável a este tipo de programação «não permitindo sequer que um pai possa estar a ver o telejornal com o filho...»
Por outro lado, o promotor da iniciativa recorda que, após o célebre «episódio da Margarida» de «O Bar da TV», levantou-se um clamor em Portugal, ouviram-se críticas à inacção da Alta Autoridade para a Comunicação Social e até propostas de alteração à lei da televisão, «mas ninguém pensou no peso e força que as personalidades públicas têm na medida em que cada vez que participam nos programas da SIC e TVI caucionam a programação que esses canais transmitem».
E depois das críticas proferidas por vários políticos, Joaquim Costa espera, agora, que estes «sejam consequentes». Pois, sublinha, «é muito fácil apelar a uma movimentação da sociedade civil e depois ignorar. Gostávamos de ouvir, pelo menos, das figuras públicas e dos políticos se concordam, ou não, com a iniciativa e se vão aderir».
Insensíveis ao boicote
Apesar do apelo ao boicote, nenhum dos comentadores da SIC ou TVI contactados pelo EXPRESSO tenciona aderir à iniciativa. Embora alguns se mostrem favoráveis a esta «forma de intervenção cívica» e optem por criticar, em particular, os patrocinadores de programas como o «Big Brother» ou «O Bar da TV».
Neste sentido, Marcelo Rebelo de Sousa considera «perfeitamente legítimo que os telespectadores boicotem programas que consideram de todo em todo inaceitáveis ou até que vão mais longe e, de forma mais eficaz, façam campanhas contra as marcas que os patrocinam e os pagam». Quanto aos seus comentários políticos na TVI, ao domingo à noite, o ex-líder do PSD diz que não vai abdicar desse espaço: «Por mim, desde o início tomei a decisão de não ceder um segundo do tempo de que disponho e até de o tentar alargar. Que eu saiba, já só somos dois comentaristas permanentes em jornais diários dos principais canais generalistas. Não vou dar de bandeja o meu tempo, para alongar um 'reality show' ou para o tratamento, em jornal noticioso, desse mesmo 'reality show'. Pelo contrário, tenciono preservar o meu tempo e, periodicamente, comentar criticamente aquilo que se passa, ainda que seja no canal onde dou a minha opinião».
Já José Sócrates considera que a SIC-Notícias é «a única boa notícia no panorama televisivo», uma razão mais do que suficiente, no seu entender, para continuar a participar nos debates políticos do canal. «Há que puxar por aquilo que é bom», afirma o ministro do Ambiente e dirigente do PS, ex-responsável pela tutela da comunicação social, convicto de que a sua presença televisiva «enquanto político» é «um contributo para o pluralismo democrático».
Por outro lado, o fadista João Braga, outro dos comentadores habituais de programas televisivos (nomeadamente desportivos), reconhece que já teve conhecimento da iniciativa através de correio electrónico, mas defende: «Não é com abaixo-assinados que se muda a situação, mas sim com os anunciantes a deixarem de querer publicitar».
Comentador-residente do programa «Esta Semana» (da SIC), o advogado Daniel Proença de Carvalho - que desconhecia a iniciativa - duvida da «eficácia deste tipo de atitudes», embora considere que «qualquer intervenção cívica sobre o tema é positiva». Quanto à participação, enquanto comentador, nas estações televisivas, Proença de Carvalho sustenta que tem um compromisso com a SIC e que irá continuar a dar a sua «opinião sobre estes assuntos», acrescentando que estas «não são atitudes realistas» e que o «problema é a ausência da tutela de direito», pelo que já sugeriu a «criação da figura de provedor do telespectador.
Maria Barroso entre os apoiantes
O boicote às televisões tem sido, por outros, conotado como uma forma de censura. Aliás, a única resposta que Joaquim Costa obteve de uma personalidade política foi a do bloquista Miguel Portas, convidado ocasional de programas televisivos de informação, precisamente considerando que o boicote proposto se trata de uma «medida protocensória».
Uma posição que é negada pelos seus promotores. Joaquim Costa afirma mesmo tratar-se de «uma confusão lamentável na cabeça das pessoas, que estão a confundir o apelo a que cada um faça a sua opção com uma imposição externa».
Entretanto, sexta-feira da semana passada, o movimento ganhou novo fôlego com o lançamento de um sítio na Internet (http://quarentenatv.tripod.com). Além de conter um espaço dedicado à opinião dos visitantes, em jeito de fórum de debate, o sítio apresenta a lista dos «anunciantes do telelixo» e divulga alguns dos apoios que a iniciativa já obteve. Maria Barroso Soares, Francisco Sarsfield Cabral, Sidónio Paes, João César das Neves, Luís Salgado de Matos, o Centro Nacional de Cultura e a Associação Portuguesa das Famílias Numerosas, entre outros, são nomes que apoiam a iniciativa e aderem à «quarentena» antitelevisiva. Anteontem, juntaram-se-lhes Ana Maria Braga da Cruz, presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, a escritora Luísa Costa Gomes e o presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz, Bagão Félix. A deputada socialista, Helena Roseta, e o deputado social-democrata, Paulo Teixeira Pinto, também deram ontem o seu apoio à «quarentena» garantindo que recusarão eventuais convites destes canais durante o mês de Junho.
Por enquanto ainda não se registaram alterações significativas nos índices de audiência destes canais. Mas os promotores da iniciativa não desmobilizam. «Não há ilusões. Não esperamos que as audiências tenham caído em flecha no fim do mês, mas queremos fazer um boicote activo de forma a poder provocar alguma mossa nos canais. Para isso, temos também de nos privar de assistir aos programas de que gostamos e que eles julgam que estão seguros», remata Joaquim Costa.
SOFIA RAINHO, com ANA SERZEDELO, ANA PAULA AZEVEDO e CRISTINA FIGUEIREDO
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