Expresso - 2 de Junho

Valores em exame 

O enunciado de um teste promove um anti-herói? Ou espelha a realidade? 

PAIS e professores de português e matemática estão indignados com o texto seleccionado para a prova de aferição de português do 6º ano da escolaridade, realizada na passada segunda-feira, destinada a jovens com 12 anos. Olívia Silva, professora de português numa escola de Santa Iria da Azóia, considera «grave» a escolha. «Ao longo do ano tentamos inculcar nas crianças uma série de valores e de regras e depois surge um texto em que o miúdo foge do dono da loja a quem partiu a montra e despreza os pais, porque está cheio de dinheiro. Premeia o ser mau aluno e mal comportado», A professora adianta que «muitos estudantes que fizeram a prova se revêem no anti-herói». 

Para Isilda Santos, professora de matemática e presidente do conselho executivo da escola Avelar Brotero, «o menino sai como um herói». Segundo ela, trata-se dum texto bom para ser analisado e discutido na aula, onde os alunos podem revelar o seu sentido crítico, mas jamais para uma prova. «É a institucionalização do insucesso a matemática e da rebeldia e a promoção do poder do dinheiro; o protagonista vê os pais como uns pobres pelintras».

Nesta escola, o conselho pedagógico vai registar em acta a sua desaprovação do texto escolhido. Também na escola Padre António Lourenço Farinha, da Sertã, segundo um professor de português contou ao EXPRESSO, o assunto foi largamente criticado entre os docentes. Consideram que no excerto escolhido há «um rapaz que foge às responsabilidades, tem falta de escrúpulos e desdém pelos pais. Passa a ideia de que a matemática é uma disciplina maldita e os pais surgem como carrascos. São ideias e atitudes que não deveriam ser divulgadas a nível nacional. O livro de onde foi tirado tem passagens bem mais interessantes».

«É inadmissível sair com um texto destes na conjuntura actual», reforça Vítor Sarmento, presidente da Confederação das Associações de Pais (CONFAP). Para os encarregados de educação, o excerto «trata mal os pais e não desmonta o problema da matemática». Pode ainda, acrescenta, indiciar que o mau comportamento compensa. «Como é possível que numa altura em que se pretende promover a cidadania se dê um exemplo de desrespeito e se premeie uma fuga?», interroga-se o representante dos pais e encarregados de educação. E diz ainda que se «promove a desresponsabilização e a importância do dinheiro».

«Críticos moralistas»

Do lado dos defensores da prova está o professor de português Luís Costa, para quem «o texto não incita à violência por tratar-se de uma efabulação», e considera os críticos «muito moralistas».

A defesa da escolha feita também é assumida por Glória Ramalho, directora do Gabinete de Avaliação Educacional, responsável pelas provas de aferição.

«A autora do livro não cede à tentação moralizante ou catequética de pôr uma criança a actuar como um adulto, conhecedor da lei e da esquadra de polícia mais próxima», responde Glória Ramalho. E acrescenta que o excerto fala de uma um problema real e significativo - o insucesso a matemática - «gerador de uma frustração e impotência». Contrariamente ao que se pretende fazer crer, «não tece referências menos abonatórias» à matemática ou «uma incitação gratuita à violência», acrescenta. Glória Ramalho explica que o rapaz descobre «um tesouro» e não um prémio. «Prémios há na televisão, que são dados a pessoas que não têm cultura geral», critica. E pergunta se terá de haver dois tipos de autores: «Os que continuarão a escrever para os jovens como sempre o fizeram, ignorando estes assomos censórios, e os que aceitem submeter-se aos ditames de uma escrita por encomenda.» 

A autora do livro O Rapaz e o Robô, de onde foi retirado o excerto, Luísa Ducla Soares, tem uma posição semelhante e diz rever-se na selecção feita, apesar de ao longo da história o rapaz passar de anti-herói a herói. «O texto, truncado embora, remete-nos para o início da obra, para um miúdo revoltado após receber mais uma negativa a matemática. Será que as crianças que fizeram estas prova vivem numa redoma, não têm colegas assim?» A escritora interroga-se se os críticos não estão «a esconder a cabeça como o avestruz. Essas pessoas não serão aquelas de quem a nossa juventude se queixa por não terem tempo, disposição ou abertura para falar com os mais novos?» 

MONICA CONTRERAS


«João saiu da escola furioso» 

João saiu da escola furioso. Mais uma negativa a Matemática! Ia ficar de castigo e, ainda por cima, lhe cortavam a semanada. 

(...) Deu um pontapé numa pedra e logo, por azar, trás!, a maldita foi acertar no vidro da drogaria. Plim... plim... plim... desfez-se em cacos. 

João largou a correr, atrás dele o droguista, atrás os colegas a rir, numa chacota. 

- Que pontaria! 

- Não acertas nas contas, mas acertas nas montras.

- Vais ser convidado para a secção de futebol. Este foi o melhor golo do campeonato.

Fingindo não os ouvir, o rapaz esgueirou-se, saltou para um autocarro, sem saber o destino que levava.

Aos balanços, sacudido para aqui e para além, via passar casas e ruas desconhecidas. Perdido por cem, perdido por mil. Havia de ir até ao fim da carreira. Voltar para casa para quê? Para apanhar um raspanete? 

Era quase noite quando o autocarro finalmente parou junto a um largo triste. Apeou-se. Não sabia onde estava. Foi vagueando ao acaso, por entre prédios arruinados, até um jardim onde meia dúzia de árvores erguiam os ramos para o céu, como fantasmas reformados. Doía-lhe a cabeça e tinha a barriga a dar horas. Sentou-se num banco, pousou a mochila ao lado. Não havia por ali vivalma. Mas no banco em frente estava uma pasta de crocodilo. 

Sempre fora curioso. Deu dois passos, carregou no fecho dourado e que viu ele? Milhares e milhares de notas de dez mil. Procurou um nome, uma morada. Absolutamente nada. 

Olhou mais uma vez em volta. Ninguém. Então atirou fora com cadernos e livros e atulhou a mochila com aquela inesperada fortuna. 

Não sabia quanto dinheiro tinha. Mas era milionário pela certa.

A cabeça quase lhe andava à roda de fome e entusiasmo. Podia comprar uma quinta, um carro, um cavalo, tudo o que desejasse. Só não podia livrar-se da Matemática. 

(...) Quando chegou a casa, a mãe choramingava e o pai afivelava cara de caso.

(...) João ria-se por dentro enquanto ouvia os ralhetes e ia quase soltando uma gargalhada ao anunciarem-lhe que lhe cortavam a semanada. 

Pobres pelintras... para que queria eu a esmola deles? - pensou, mas disse apenas - Pronto. Estou aqui de novo. Posso jantar? 

O pai levantou-se numa fúria. 

- Pensas que a tua mãe é empregada de restaurante? Aqui as refeições são a horas certas. Passa das nove, ficas sem comer. 

Encolhendo os ombros, João foi para o quarto e ligou a televisão portátil. Um sábio com barbas brancas apresentava a sua invenção fantástica: um robô que em nada se distinguia de um ser humano e era dotado de extraordinárias capacidades. 

- Este robô fala, come, escreve. Tem a força de um touro e é capaz dos mais complicados cálculos mentais - assegurava o locutor. 

João saltou na cadeira. Tivera uma ideia, uma ideia tão luminosa que não dormiu toda a noite.

Luísa Ducla Soares

O Rapaz e o Robô 

Lisboa, Ed. Terramar, 1995 

(texto com supressões)
 

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